Critica por favor o meu elevado ego

02/04/2020

pesadelos

rascunhos — João Oliveira @ 04:31

– que se passou?, perguntou-lhe num sussurro, enquanto o abraçava pelas costas.

não a tinha ouvido aproximar-se e estremeceu num sobressalto, mas sem tirar os olhos do céu estrelado lá fora.

– tive um pesadelo, balbuciou, entre dentes.

voltou a apertá-lo no seu abraço quente, apenas de pijama e de pés descalços no chão frio.

– não queres vir para a cama?

– tive um pesadelo, voltou a repetir. e… acordei a chorar.

foi então que ela reparou nos seus olhos vermelhos e no bater do coração galopante. beijou-lhe a fronte e despediu-se, sem dizer nada, os passos tão silenciosos quanto quando tinha entrado.

ele permaneceu imóvel à janela, a fitar o firmamento, sem dar pelas horas a passar. quando o sol começou a raiar, deu uma volta pela casa escura.

abriu de mansinho a porta do quarto onde as filhas dormiam, aconchegou-lhes os cobertores que as tapavam e deu um beijo demorado em cada uma delas, como se fosse a última vez que as visse. antes de ir, demorou-se à entrada do quarto, a porta entreaberta a iluminar-lhes a face.

sorriu, o ritmo cardíaco mais calmo.

fechou silenciosamente a porta e recolheu aos seus aposentos, onde o abraço acolhedor da mulher o aguardava.

deixou-se ficar, deitado de costas, desta vez a prescrutar o tecto escuro, enquanto tentava empurrar da memória as imagens que o tinham acordado em lágrimas e com suores frios. virou-se na cama, atirando para trás das costas o sonho mau, e voltou a adormecer enquanto o mundo lá fora regressava à vida, os fantasmas do passado longe… por agora.


26/03/2020

não

poesia — João Oliveira @ 03:11

tu não és a tua idade
nem o tamanho da roupa que vestes
tu não és o teu peso
nem a cor do teu cabelo
não és o teu nome
ou as covinhas que tens na cara
és os livros que lês
e todas as palavras que falas,
és a tua voz estremunhada pela manhã
e todos os sorrisos que tentas ocultar
és a doçura no teu riso
e todas as lágrimas que já choraste
és as canções que cantas em voz alta
quando sabes que estás sozinha
és todos os sítios onde já estiveste
e aquele a que chamas de lar
és as coisas em que acreditas
e as pessoas que amas
és as fotos nas paredes do teu quarto
e o futuro com que sonhas
és feita de tanta beleza
mas parece que te esqueceste disso
quando decidiste definir-te
por tudo aquilo que tu não és.

:: tradução livre do poema not, de erin hansen


21/03/2020

amor em tempos de pandemia (1)

manifesto — João Oliveira @ 19:07

“se sobrevivermos a isto, casamos”, disse-me ela ao ouvido, num sussurro que me percorreu espinha abaixo e me deixou de sorriso rasgado na cara.


09/03/2020

cada vez mais

poesia — João Oliveira @ 01:10

quando ela se deixa adormecer
no aconchego do meu peito
de mãozinha fechada sobre a boca
e respirar compassado com o sono
sinto-me o homem mais forte do mundo
realizado
completo
uno

capaz de enfrentar o mundo
e protegê-la de todo e qualquer mal
apagar-lhe os traumas do passado
e despachar a bagagem emocional
a minha e a dela
para juntos seguirmos viagem
em direcção a um futuro em conjunto
longe daqui

aperto-a forte
quando lhe sobressalta o sono
beijo-lhe a fronte
e arrumo-lhe atrás da orelha
aquela madeixa de cabelo
que teima em cair-lhe sobre a face

sinto-a segura
entregue e sem receios
no calor do meu abraço

deixo-me então adormecer
sorriso parvo na cara
a alma descansada

e a certeza
de
um
amanhã
cada vez mais
risonho


18/02/2020

secretamente

poesia — João Oliveira @ 23:41

ela diz-me que não quer que vá embora
com a voz cheia de mimo
e o meu coração por dentro derrete
no aperto do abraço dela
aconchego-a no meu regaço
fico a vê-la adormecer
e começo a contar
secretamente
os dias que faltam para regressar


página seguinte »