Critica por favor o meu elevado ego

21/05/2020

palavras (3)

poesia — João Oliveira @ 00:18

todos os dias escrevo para ti
na fútil tentativa de encontrar palavras
– se não as palavras
pelo menos algumas palavras –
para que saibas o que tenho para dizer-te
e o quanto gosto de ti

faço uns rabiscos na minha cabeça
confiante de que me lembrarei deles mais tarde
quando tiver à minha frente
um pedaço de papel e caneta

mas essas palavras fogem-me
como fogem todas as outras
aquelas que
porventura
seriam as palavras certas

e o que fica
senão a frustração de não conseguir escrever-te
alguma coisa de jeito?

palavras que não soem a ridículo
palavras que não ecoem na minha cabeça
palavras que preencham o vazio dos meus sonhos

ficas apenas tu
e os rascunhos do que te fui escrevendo
amarrotados
no fundo da minha mente
esquecidos

as palavras a serem arrancadas da alma
a caneta na mão direita
e o coração a fitar-me
em tom de gozo


30/04/2020

daqui por vinte anos

ensaio — João Oliveira @ 00:00

daqui por vinte anos, quero estar a contar aos nossos filhos como foi o nosso primeiro encontro. a história toda: como me deste uma tampa da primeira vez que te convidei para sair, como te fazia rir com as minhas tiradas tão cheesy e tão pirosas ou como aquele concerto dos ornatos violeta, numa noite em que mercúrio tinha acabado de entrar em retrógrado, foi o ponto de partida para uma vida em conjunto.

como sobrevivemos juntos a esta crise existencial que se abateu sobre o mundo, sem pedir licença, e que acabou por acelerar a maneira como ficámos a conhecer-nos melhor, ficámos a saber o melhor e o pior de cada um, de como continuámos a apaixonar-nos ainda mais um pelo outro a cada dia que passou. de como amámos, lutámos e chorámos para mais tarde sairmos disto juntos, mais fortes.

daqui por vinte anos, quero amar-te ainda mais, cada vez mais, se for isso possível. quero olhar os nossos filhos e ver neles o teu reflexo, os putos mais giros do mundo. vou continuar a tentar conquistar-te todos os dias, como deve ser.

quero estar na nossa casa, um lar que construímos em conjunto, e receber os nossos amigos para serões animados e cheios de alegria. quero fazer como os heróis dos filmes e das séries de televisão e ter uma daquelas cenas em que ele olha para a família, ao longe, com uma pianada pirosa por baixo, ver-te com os putos a brincar de volta de ti e apenas sorrir, pela sorte que tive em ter construído tudo isto contigo. sabes que esses momentos que ainda não vivemos já me enchem o coração, hoje. imagina só o quão a abarrotar estará daqui por vinte anos.

daqui por vinte anos vou estar a pensar como raio foi que vinte anos passaram tão depressa? vou ficar a pensar e a questionar-me porque foi que demorámos tanto tempo a encontrar-nos. e vou ficar a pensar nos vinte anos seguintes. e nos outros. daqui por vinte anos, vou ter mais de cinquenta e tu uma quarentona e eu continuarei a ser o gajo com mais sorte à face da terra por te ter a meu lado.

teremos realizado já grande parte dos nossos sonhos, mas eu ter-me-ei há muito arrependido, por exemplo, de não ter feito contigo aquele vídeo para aquela cápsula do tempo que querias fazer.

daqui por vinte anos, quero continuar aqui, porque mais importante do que termos um futuro em conjunto é termos construído todo este passado que mal posso esperar por viver contigo.

:: santa maria da feira, 27 de abril de 2020

#seismeses


12/04/2020

joana

manifesto — João Oliveira @ 22:44

a madrugada do dia 1 de janeiro de 2006 foi a primeira vez que disse “amo-te” a alguém. nessa noite, adormecemos lado a lado, embriagados e cada um enfiado no seu saco-cama, no canto de uma sala de uma qualquer moradia no meio do campo nos arredores de coimbra.

olhando em retrospectiva, parece-me óbvio que a não amasse. não creio mesmo que a i. acredite, ou tenha acreditado muito na altura, que eu realmente a amava. era jovem, dezanove anos acabadinhos de fazer, na ânsia de querer ter alguém a meu lado e a quem dizer que a amava.

mas a verdade é que, até à noite de 23 de fevereiro de 2020, foi a única pessoa a quem alguma vez tinha dito “amo-te”.

é, talvez, a única palavra de que tenho mesmo medo, mas que tenho aprendido a usar.

ultimamente tenho andado mais introspectivo e, há dias, pus-me a pensar nos últimos dez anos da minha vida, nas voltas e trambolhões que ela foi dando. às vezes dá-me para isto. apercebi-me eu que não posso dizer que tenha amado verdadeiramente alguém que não sejam os meus amigos mais chegados ou a minha família.

alguns dos que me conhecem, a mim e a algumas páginas de história dos últimos dez anos da minha vida, lembram-se automaticamente da m., mas posso dizer, com segurança, que não foi amor aquilo que sentia naquela altura. podia achar que sim e todos os que nos rodeavam pensavam da mesma forma, ao ponto de acreditarem que ainda tenha uma qualquer réstia de sentimento e de esperança, por ela e por nós.

estão errados.

a esta distância, depois de tudo o que aconteceu e analisando racionalmente tudo o que se passou, a m. mais não era do que uma fixação, uma obsessão, uma paixoneta daquelas que estão destinadas a não durar muito ou a acabar mal. foi o que acabou por acontecer.

olho hoje para esse joão guilherme, fico a pensar como raio foi ele capaz de se deixar enredar nessa novela, de se rebaixar e deixar humilhar daquela maneira, e apercebo-me do quanto cresci enquanto homem.

houve outras m. pelo caminho, porque, na altura, eu tinha um grave problema com a letra m, mas ninguém que tenha, de uma forma ou de outra, deixado uma marca significativa. até porque nunca escrevi sobre elas.

até que chegamos à xis.

chegamos à xis e eu não sei o que dizer sobre a xis. foi verdadeiramente o meu grande heartbreak, quem conseguiu deixar-me na merda durante tantos e longos anos que nem sei contá-los.

não posso dizer, de todo, que a não tenha amado, porque terminou tudo tão depressa e tão de repente que nem deu para perceber o que na verdade foi que aconteceu. mas sim, acredito mesmo que tenha amado a xis – e ela a mim – e que foi isso que invariavelmente precipitou o nosso fim.

até que 31 de outubro de 2019 chegou. mercúrio a entrar em retrógrado, mas, ainda assim, a vida a começar a sorrir-me, finalmente, depois do ano de merda que 2018 foi.

começando pelo princípio, como qualquer boa história, a joana entrou na minha vida e eu na dela de uma forma que nenhum de nós alguma vez imaginou que pudesse acontecer. por vezes ponho-me a pensar no destino e na maneira como a vida parece dar um ponto que pensamos ter ficado solto para mais tarde acabar por dar o nó de que nós já tínhamos perdido o fio.

costumo pensar sempre, por exemplo, naquele homem, português por sinal, que morreu num ataque terrorista no sri lanka, no início de 2019.

o rui era engenheiro e estava em lua de mel, com a mulher, com quem tinha casado dias antes. quando li a história deles, um pensamento assombroso cruzou-me os pensamentos: “no dia em que ele a pediu em casamento, já estava escrito que ia morrer”.

e outros tantos se lhe seguiram: e se a companhia aérea que os levou ao sri lanka tivesse partido a horas de portugal? ou se se tivesse atrasado uns minutos ou umas horas que fosse? ou a bagagem se tivesse extraviado? se qualquer coisa tivesse acontecido que mudasse o rumo dos acontecimentos e eles não estivessem ali, naquele lugar, naquele preciso momento.

mas ficar a pensar nisto não é saudável.

não é, de todo, saudável porque dás por ti e estás a repensar toda a tua vida, no que fizeste e não fizeste, no que poderias ter feito ou deixado de fazer para mudar esse teu destino, se é que isso é sequer capaz, que te trouxe até aqui, neste preciso momento, para leres estas linhas que escrevo. acabas por entrar numa espiral de que podes não conseguir escapar.

mas isto para dizer o quê? para diz que se a joana não tivesse precisado daquele bilhete para aquele alive, em 2018; se a minha tia não tivesse que vender o bilhete dela; se a outra parvalhona que já tinha dito que comprava o meu bilhete não tivesse sido a única pessoa com “problemas de rede” dentro do recinto porque muito provavelmente arranjou um convite ou um bilhete mais barato; se eu não a tivesse adicionado no facebook e seguido no instagram e ela a mim; se o amigo dela não tivesse precisado de bilhetes para o lisb-on e ela não tivesse vindo falar comigo; se qualquer uma das outras relações que eu e ela tivemos não tivesse falhado…

se tudo isso e quaisquer outros eventos que influenciaram o curso dos nossos caminhos ao longo do tempo não tivessem acontecido, eu não teria convidado a joana para ir ver os ornatos violeta ao rosa mota naquela noite de halloween e não estaríamos hoje, aqui e agora.

ou se calhar até teria convidado e ela teria dito que não, mas isso abre a porta a toda uma série de linhas de tempo e cenários alternativos que nem quero imaginar as infinitas possibilidades que levariam a que estivéssemos hoje, aqui e agora.

regressando ao presente.

no dia 23 de fevereiro, senti aquele “também te amo” que disse à joana no meio da pista do lux, mas foi alguns dias depois, naquela tarde de 7 de março, quando lhe sussurrei “amo-te” ao ouvido, enquanto a cascata despejava furiosamente o rio contra o leito cá em baixo, que fiquei a entender o que é realmente amar alguém.

desde então tem sido muito mais fácil dizer-lhe que a amo.

mas é que um “eu também te amo” é diferente do que um “amo-te”, muito mais diferente do que um “amo-te” de que não se está à espera de ouvir, embora se saiba que ele existe dentro de um peito que também amamos e que passou a bater por nós, passou a ser nosso.

ela acha que eu nunca vou gostar dela como gostei das outras antes dela, mas a verdade é que ela nem sonha que eu nunca amei alguém como a amo a ela.

há uns tempos, vivia completamente amargurado, porque acreditava que não voltaria a gostar de alguém como já gostei antes e não sabia confessar-lhe isto, porque achava no fundo de mim que estava, de alguma forma, a enganá-la e não conseguia viver com isso. os meus amigos diziam-me que nunca me tinham visto tão apaixonado e eu apenas sorria, enquanto engolia essa tristeza. estava estragado, achava eu, ao ponto de acreditar que nunca iria apaixonar-me pela joana.

estava era parvo, é o que eu estava.

de vez em quando a joana apanha-me a observá-la, de olhar completamente embevecido e absorto nela, a admirá-la, a adorá-la, a tentar “engoli-la” com os olhos. às vezes estamos deitados na cama e eu só a encho de beijos, enquanto ela me pergunta, entre risos, “pronto, já queres foder, não é?”, mas tudo o que estou a fazer é só isso: a adorá-la.

noutro dia estávamos sentados na cama, a preparar-nos para dormir, e ela apanhou-me num destes momentos. perguntou-me o que se passava e eu só soube responder-lhe “ó joana, eu amo-te tanto”.

foda-se, como raio alguma vez achei que não amava esta miúda?

a mão dela encaixa perfeitamente na minha e eu entrelaço o meu dedo indicador no mindinho dela quando vamos passear. inconscientemente, o meu polegar cobre o dela, porque quero protegê-la daquilo que a vida nos atira ao caminho.

mas ela não precisa de mim. não precisa que eu olhe por ela enquanto dorme, porque é mulher, e irrita-a solenemente que eu apenas escreva sobre ela quando está a dormir [1][2][3].

é inteligente e cheia de convicções, as delas e que eu respeito, embora tenhamos as nossas discórdias. ela não mesmo precisa de mim e eu vivo constantemente aterrorizado que chegue o dia em que ela acorde e perceba isso mesmo: que está farta das minhas merdas, que não precisa de mim e que, se calhar, até está melhor sem mim e quer ir embora.

ela é forte, embora por vezes se deixe ir abaixo, mas tem sabido lidar, melhor ou pior, é certo, com as contrariedades que lhe têm surgido pelo caminho. mas a verdade é que estamos aqui os dois, juntos, a enfrentar a vida de peito aberto, sem medos. por isso a coisa só pode ter corrido bem.

aquela coisa do destino, sabem?


02/04/2020

pesadelos

rascunhos — João Oliveira @ 04:31

– que se passou?, perguntou-lhe num sussurro, enquanto o abraçava pelas costas.

não a tinha ouvido aproximar-se e estremeceu num sobressalto, mas sem tirar os olhos do céu estrelado lá fora.

– tive um pesadelo, balbuciou, entre dentes.

voltou a apertá-lo no seu abraço quente, apenas de pijama e de pés descalços no chão frio.

– não queres vir para a cama?

– tive um pesadelo, voltou a repetir. e… acordei a chorar.

foi então que ela reparou nos seus olhos vermelhos e no bater do coração galopante. beijou-lhe a fronte e despediu-se, sem dizer nada, os passos tão silenciosos quanto quando tinha entrado.

ele permaneceu imóvel à janela, a fitar o firmamento, sem dar pelas horas a passar. quando o sol começou a raiar, deu uma volta pela casa escura.

abriu de mansinho a porta do quarto onde as filhas dormiam, aconchegou-lhes os cobertores que as tapavam e deu um beijo demorado em cada uma delas, como se fosse a última vez que as visse. antes de ir, demorou-se à entrada do quarto, a porta entreaberta a iluminar-lhes a face.

sorriu, o ritmo cardíaco mais calmo.

fechou silenciosamente a porta e recolheu aos seus aposentos, onde o abraço acolhedor da mulher o aguardava.

deixou-se ficar, deitado de costas, desta vez a prescrutar o tecto escuro, enquanto tentava empurrar da memória as imagens que o tinham acordado em lágrimas e com suores frios. virou-se na cama, atirando para trás das costas o sonho mau, e voltou a adormecer enquanto o mundo lá fora regressava à vida, os fantasmas do passado longe… por agora.


26/03/2020

não

poesia — João Oliveira @ 03:11

tu não és a tua idade
nem o tamanho da roupa que vestes
tu não és o teu peso
nem a cor do teu cabelo
não és o teu nome
ou as covinhas que tens na cara
és os livros que lês
e todas as palavras que falas,
és a tua voz estremunhada pela manhã
e todos os sorrisos que tentas ocultar
és a doçura no teu riso
e todas as lágrimas que já choraste
és as canções que cantas em voz alta
quando sabes que estás sozinha
és todos os sítios onde já estiveste
e aquele a que chamas de lar
és as coisas em que acreditas
e as pessoas que amas
és as fotos nas paredes do teu quarto
e o futuro com que sonhas
és feita de tanta beleza
mas parece que te esqueceste disso
quando decidiste definir-te
por tudo aquilo que tu não és.

:: tradução livre do poema not, de erin hansen


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