Critica por favor o meu elevado ego

19/09/2019

Capítulo último

manifesto, prosa — João Oliveira @ 23:39

Nessa noite, chegou a casa, cansado. Havia muito tempo que não saía assim do trabalho, completamente de rastos, a querer apenas estar horas no duche, a levar com a água quente no corpo dorido, enfiar-se debaixo dos lençóis e dormir até o despertador o acordar, sobressaltado, de manhã.

No momento em que ia a colocar a chave na fechadura, lembrou-se da discussão dessa manhã e o que o esperava do outro lado da porta. Respirou fundo, com a chave ainda suspensa no ar, rodou a fechadura e entrou, decidido a enfrentar a fúria da Sara.

Seguiram-se as habituais horas de discussão.

Portas a bater, murros na mesa, gritos de um lado para o outro, entre divisões diferentes da casa até.

Ficaram horas naquilo, até que, exaustos e emocionalmente esgotados, a casa caiu num silêncio gritante, o ar de cortar à faca. Cada um se arranjou para dormir, entraram, mudos, na cama, sem se despedir e desligaram as luzes, a escuridão como que a esconder os despojos de uma relação que há muito terminara.

Ele deixou-se ficar, deitado de costas, a fitar o tecto escuro que parecia devolver-lhe o olhar, enquanto ela dormia serenamente ao lado, como se a discussão dessa noite não tivesse acontecido, a enésima a juntar à lista.

Estava embrenhado nos pensamentos enquanto ia, aos poucos, apercebendo-se do quão miserável a sua vida se tinha tornado desde que decidira voltar para ela. Vivia numa ilusão, a maior da sua vida, totalmente deslumbrado pela ideia que tinha dela, sem conseguir ver para além da sua obsessão apaixonada. Tinha colocado a Sara num pedestal e recusava-se, inconscientemente, a deixá-la, ou fazê-la, cair daquele sítio divinizado que criara à medida dela.

Estes pensamentos foram assolando-o noite após noite, todos os dias da semana.

Acordava todas as manhãs exausto, pouco depois de ter conseguido silenciar as vozes que lhe gritavam para ir embora, fugir, ir viver, ser feliz. As mesmas vozes que o atormentavam e que tinha conseguido adormecer poucas horas antes, por breves momentos, os poucos instantes de sossego que tinha. Ao fim do dia regressava, ainda mais cansado, àquela rotina de discussões atrás de discussões em que aquela relação se tinha tornado.

Aos poucos, começava a ver o que ela realmente era e o quanto aquela relação exigia dele e o desgastava.

Ele nunca tinha sido mais do que um brinquedo nas mãos dela e ele conseguia agora perceber isso. Ele apenas servia para a sua satisfação, pouco mais, e ela tinha-o tornado fraco, fácil de manipular, ao sabor da sua vontade. Percebia agora o que os amigos tinham tentado, em vão, dizer-lhe.

Olhando em retrospectiva, percebeu que estava mais sozinho do que nunca.

Aqueles que sempre se tinham preocupado consigo foram os mesmos que tinha afastado, sem pensar duas vezes. O André, a Sofia, o João. Tudo por causa dela. Sempre sob o controlo dela. Ele não tinha sido mais do que um boneco nas suas mãos, um plano, um projecto. Ela apenas o tinha moldado à sua imagem, para fazer dele o que queria, a seu bel-prazer.

Chegou o dia em que decidiu que bastava. Não valia a pena permanecer mais numa relação de um só sentido. Levantou-se da cama, arrumou calmamente as suas coisas e saiu, sem deixar recado, destino ou direcção. Foi com esta música que saiu a cantarolar em passo decidido pela rua, noite fora. Com o bater da porta, saiu de casa para nunca mais voltar. Deixou-a para trás e foi ser feliz.


12/07/2019

Estrelas e constelações que já não vemos

manifesto — João Oliveira @ 04:11

Há momentos em que a ressaca bate com mais força do que aquela a que estás habituado e ficas sem saber ao certo se é por causa dos excessos da noite anterior ou apenas a dura realidade a recordar-te de que o teu coração continua irremediavelmente partido e sem ninguém para ajudar-te a recolher os cacos.

Achavas, ingénuo, que a última vez ia ser mesmo a última vez, mas foi apenas mais uma desilusão na já longa lista de desapontamentos que vais somando. Sonhos arruinados, esperanças despedaçadas, futuros apagados.

Costuma dizer-se que não se pode partir um coração partido, mas quantas vezes aguenta um coração ser partido? Não interessa, na verdade, porque um coração vai acabar sempre por ser partido, aconteça o que acontecer.

Acostumei-me a ver-te acordar a meu lado, o teu perfil desenhado pela luz difusa que entrava pela janela enquanto te preparavas para o dia que estavas prestes a enfrentar. Eu deixava-me estar, deitado a observar-te apenas, deliciado, questionando-me se tudo não seria ainda parte de um sonho de que acabara de acordar. Tu eventualmente reparavas e ficavas de repente sem jeito, a face a enrubescer e um sorriso a iluminar-te ainda mais a face.

Eram esses os momentos mais preciosos, aqueles em que sentia o tempo suspenso ao nosso redor e que me faziam questionar-me que raio teria eu feito nesta ou numa outra vida para que tu tivesses escolhido estar comigo.

Eram dias felizes. Frios, mas felizes.

Recordo as nossas caminhadas a dois por aquelas ruas escuras e frias desse Porto que não me canso de adorar, o calor da tua mão na minha a aquecer-me a alma e o coração. O teu sorriso a rasgar-te a face, de orelha a orelha, o olhar tão apaixonado com que me fitavas nos momentos em silêncio, um silêncio cúmplice e de quem não quer mais nada senão estar ali. Aquela vista magnífica sobre o Douro que tantas vezes me levaste a admirar – era das poucas coisas que te pedia sempre que te visitava – tinha o condão e a virtude de sossegar-me o espírito, a tua presença a tranquilizar-me o ser, como só tu conseguias fazer.

Eram poucas as noites bem dormidas, quando estava longe de ti. Passávamos horas noite dentro a conversar, a matar as saudades que a distância mais não fazia senão alimentar. Fazíamos planos a dois, os sítios onde queríamos ir, as cidades que queríamos visitar, as pessoas que queríamos conhecer.

Mas um dia deixaste de querer estar ali, onde também eu estava. Eu já sabia o que querias dizer-me quando fomos jantar naquele último dia, mas, ainda assim, despedaçaste-me o coração enquanto me dizias que já não querias estar comigo.

E, de repente, o quarto esfriou, assim que a porta bateu atrás de ti e tu descias as escadas e entravas no táxi que te levaria para longe, tão longe, fora do alcance. Retirei-me para dentro de mim mesmo, enquanto tu te retiravas da minha vida. Durante mais de um mês não lavei os lençóis onde te deitaste só para que a cama não perdesse o teu cheiro. 

Hoje sorrio sempre que vou à varanda que dá para as traseiras do prédio e onde passámos longas noites a observar as estrelas e constelações que te ensinei a ver, enquanto me dizias que não gostavas do Harry Potter. Aposto que hoje já as esqueceste.

Nunca gostei daqueles chavões que tantos partilham nas redes sociais, aquelas frases inspiracionais quase sempre vazias de significado, como aquela velhinha “não chores porque acabou, sorri porque aconteceu”, mas acho que, para ti, posso abrir uma excepção. Nem tudo dura para sempre, as pessoas não ficam para sempre. Há pessoas que entram nas nossas vidas, outras que saem e há também aquelas que expulsamos. Cada uma delas com algo para ensinar-nos, para fazer-nos crescer. Não, nem todas as pessoas ficam, mas deixam sempre algo delas dentro de nós. Tu foste, para o bem e para o mal e até ao fim, uma das melhores coisas que me aconteceu e isso eu nunca esquecerei.


19/04/2019

Insónia

prosa — João Oliveira @ 03:54

A insónia ataca violenta. Sem conseguir dormir, faço planos que tu acolhes, indiferente, quando mais tarde os partilho, entusiasmado, contigo. Depois vamos, respondes-me vagamente, o pensamento longe de nós. Recolho o meu entusiasmo e tu, percebendo a desilusão em que mergulho, tentas animar-me, prometes-me concretizar os meus sonhos e planos e mais e mais e eu acedo, esperançado. E espero. Espero pelo dia, espero que venhas. Mas o dia chega e tu não vens. O dia foi e tu não vieste. E eu penso que mudaste de ideias, já não queres, foste com outro. Os planos que fazia para nós destruídos, irremediavelmente regresso à minha insónia.


23/11/2018

Desta maneira

poesia — João Oliveira @ 13:29

Deixa-me contar-te
o resto das nossas vidas

Duas almas
para
sempre
de caminhos cruzados

Fazes a minha sorrir
e a ligeireza do teu toque
penetra fundo nela

Já falei de ti
a todas as estrelas e constelações
no firmamento
porque falar sozinho
é só quando tu não estás aqui

És tu o norte
desta bússola descalibrada

Vamos ser
eu e tu
contra o mundo

Vamos coleccionar
para sempres para sempre

Para sempre mais um dia
não chega
quando
sei
que
te
quero

desta maneira


28/10/2018

A vida muda de um beijo para o outro

poesia — João Oliveira @ 01:58

Praça Carlos Alberto, Porto
28 de Outubro de 2018, 1h58


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