Critica por favor o meu elevado ego

12/04/2024

é preciso treino para seres bom

manifesto — João Oliveira @ 14:30

quando era mais novo h̶a̶v̶i̶a̶ ̶u̶m̶a̶ ̶c̶o̶i̶s̶a̶ ̶m̶u̶i̶t̶o̶ ̶b̶o̶n̶i̶t̶a̶ ̶q̶u̶e̶ ̶e̶r̶a̶ ̶a̶ ̶s̶e̶d̶u̶ç̶ã̶o̶, o meu pai costumava tentar mostrar-me boa música. lembro-me que, quando ia buscar-me à escola, punha a tocar no carro os cd de jazz que sacava da net, enquanto me dizia, parafraseando o fernando jorge, “isto é que é boa música”.

na altura era um teenager inconsciente, adolescente irreverente com vontade de ser diferente e meio que torcia o nariz quando ele punha a tocar os discos de jazz dele. naquela altura eu queria era ouvir as músicas do momento, que as rádios da moda passavam, e o jazz parecia-me – perdoem-me, reconheço agora, a blasfémia – uma amálgama de sons de que eu não conseguia ainda destrinçar, habituado que estava ao (ainda maior) ruído da música que na altura ouvia – que ia do punk-rock ao emo, sem esquecer o techno, o house e o hip-hop – que servia de banda sonora aos meus primeiros passos de dança no início dos anos dois mil.

apesar de conseguir apreciar alguma coisa, sempre foi um estilo de música com que rapidamente me aborrecia, por isso nunca lhe prestei grande atenção. mais recentemente, houve quem me tenha mostrado o quão bom o jazz é. e, apesar de não acreditarem que prestei mais atenção do que pensam, aprendi, nos últimos tempos, a apreciar jazz.

continuo a aprender a apreciar.

como já aqui escrevi, gostava de ser como o vinho do porto e quero acreditar que, à medida que vou ficando mais velho, o meu gosto fica mais refinado, mas não estou a armar-me em culto e erudito, que agora só ouço jazz ou que o que ouço é bom jazz ou boa música. de todo, não. eu nem sei bem se o que ouço é jazz. certamente haverá melhor gosto do que o meu, mas só recentemente comecei a ouvir com mais atenção.

onde quero chegar com isto é que as viagens mentais e divagações em que entro são o que me faz apreciar tanto o jazz, tão dado ao improviso, cheio de cadências e modulações. a cada músico é dada a oportunidade de “brilhar”, ao longo de cada tema ou improviso, liderando o processo de criação por longos ou breves instantes, fazendo do instrumento uma extensão de si próprio e do que lhe vai na alma.

mas apercebi-me, acima de tudo, que a vida e o jazz acabam por ser bastante semelhantes, especialmente no que toca ao amor. muitas vezes, nas nossas relações, escolhemos pôr temporariamente de parte os nossos planos para nos focarmos nos objectivos do nosso parceiro. não chegam a ser sacrifícios, porque são escolhas que são feitas com gosto. numa relação, as coisas raramente são cinquenta-cinquenta. por vezes são vinte-oitenta, outras setenta-trinta. há sempre alturas em que um dá mais do que o parceiro para manter o equilíbrio. se é importante esse esforço extra de um, não menos o é que o outro demonstre que reconhece esse empenho e dedicação para manter a relação viva e saudável.

uma relação saudável não é sempre um mar de rosas, cheia de borboletas no estômago, estrelas no céu ao luar ou nasceres ou pôres do sol aconchegados. pelo contrário, tem momentos conturbados, de discussão, alguns cheios de dúvidas, que exigem de cada um o necessário para manter a relação viva. e para isso é necessário haver uma honestidade entre ambos, sem medo de magoar, porque só isso é que faz uma relação – e quem está nela – crescer.

é preciso falar e ouvir, sem medos, com honestidade e com verdade. dizer ao outro tudo o que nos vai na alma e no coração, sem medo de magoar, porque esse não é, nunca, o objectivo. mas são necessárias inteligência e maturidade emocionais para isso.

da mesma maneira, um namorado, um marido ou um parceiro, não pode ser, nunca, uma distracção nas nossas vidas. pelo contrário, deve ser alguém que nos ajuda a concretizar os nossos objectivos de vida, que nos apoia e incentiva a isso. assim tipo uma equipa.

falando em objectivos de vida, a verdade é que nunca fiz grandes planos e os últimos anos têm sido disso exemplo. o meu avô dizia-me que desconfiava que eu era a única pessoa verdadeiramente feliz que conhecia por causa disso mesmo: fazia aquilo que me apetecia, tanto estava ali naquele momento a discutir política e o estado do país com ele, à mesa do café, como podia pegar no carro e fazer centenas de quilómetros só para ir jantar naquela mesma noite com amigos com quem não estava fazia anos.

entretanto a vida foi-me madrasta e obrigou-me a rever o meu projecto pessoal de vida. por mais vagos que fossem, os planos (re)definiram-se, as ambições são agora diferentes, mas continuam ainda em abstracto, pelo menos na forma de alcançá-los. isto é, vou improvisando a cada passo que dou. o único plano, aliás, que alguma vez fiz na vida saiu-me furado. é preciso esperar, dar tempo ao tempo, o tempo é que manda, o tempo é o parceiro que está a jogar do outro lado da mesa e tem na mão todas as cartas do baralho e a nós compete-nos inventar os encartes com a vida, escreveu josé saramago.

é assim que tenho encarado a vida: a inventar, dia a dia, com os seus encartes.

mas mesmo para o improviso, para inventar os tais encartes com a vida, é preciso treino. é preciso conhecer as notas, os acordes, saber as suas posições e onde tocar. não é qualquer um que se senta ao piano, ou com qualquer outro instrumento e, do nada, improvisa. teve de haver muita tentativa e erro, muita nota desafinada, para que tudo possa soar de forma um tanto ou quanto coerente, quanto mais não seja na mente de quem improvisa. uma daquelas divagações, lá está. é preciso cometer erros, falhar, reconhecê-los e aprender com eles. são essas as notas e os acordes da banda sonora improvisada do que é a nossa vida.

tentar de novo. falhar de novo. falhar melhor, a famosa e truncada citação de samuel beckett que, no contexto original, pouco de positivo, inspirador ou motivacional tem.

ninguém é bom apenas por pura força de vontade. é preciso trabalhar nisso. é preciso tentar, falhar, tentar novamente. mas é preciso, sobretudo, aprender com os erros, estudar as falhas, incorporar as lições. parafraseado o mike tyson, ninguém saberá nunca – ou quase ninguém – a violência que foi necessária para as boas pessoas que povoam as nossas vidas se tornarem boas.

regressando à metáfora inicial do jazz – e para terminar esta reflexão que já vai longa –, é muito mais do que um estilo de música, é uma maneira de estar na vida, sempre à procura do próximo improviso. é também assim que tenho estado na minha vida: a improvisar, na esperança de que o próximo improviso saia mais treinado. e, portanto, menos desafinado.

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