Critica por favor o meu elevado ego

19/04/2021

3,14

música — João Oliveira @ 05:45

eu só contei as histórias boas porque só a minha sombra me vê chorar.

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05/04/2021

capítulo quarto

manifesto — João Oliveira @ 20:00

horas depois de ela ter saído, guilherme permanecia sentado na cama ainda por fazer, a fumar um pachorrento cigarro, como se nada tivesse acontecido. os lençóis, revoltos, o perfume que ainda se sentia no ar e a pouca roupa que ela deixara para trás, no fundo de uma ou outra gaveta, eram os únicos vestígios que havia de que ela ali tinha vivido nos últimos dois anos e meio.

estava tão absorto no seu cigarro, sentado na beira da cama, que nem reparou que ela entretanto regressara a casa, entrara no quarto em silêncio e levara o que restava dos seus pertences. assim se deixou ficar. acendeu outro cigarro, encostou-se na cama, a janela por trás a iluminar o quarto como um cenário de guerra, os cacos do coração os despojos, e entregou-se à inevitável certeza de que ela nunca mais voltaria.

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27/03/2021

here we go again

música — João Oliveira @ 05:23

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21/03/2021

se é isto um homem (1)

manifesto — João Oliveira @ 23:59

houve uma altura da minha vida em que fui um bocado barney. aliás, poucos eram os gajos que eu conhecia que não queriam ser o barney. não saía todas as noites para levar companhia para casa, é certo, mas pode dizer-se que safava-me bem e sem saber muito bem como. mas que fique claro: não estou a gabar-me. em boa verdade, muito pelo contrário, não é algo de que me orgulhe.

para muitos é currículo, para mim é cadastro.

com o tempo cresci, amadureci e deixei esse barney para trás, porque não queria mais ser esse tipo de pessoa. coleccionar conquistas era uma coisa infantil e decidi então transformar-me noutro barney, num outro joão guilherme. reinventei-me, porque não gostava de quem era e porque queria, sabia que podia, ser melhor. é a isso que me tenho dedicado.

há mais de dez anos que esse joão guilherme está morto e enterrado e, por maior que seja a tentação, é para deixar ficar onde está.

no final de uma noite de alive, depois de muita música e muitos copos à mistura, nos idos de dois mil e dezassete, passei meia-hora, dentro do carro à porta de minha casa, a tentar explicar à c., da melhor maneira que sabia e conseguia, que, apesar de toda a química que havia entre nós – e que era muita, quase se sentia no ar e que todos à nossa volta conseguiam ver –, eu não queria entrar numa relação com ela, porque não era com ela que eu me via no médio prazo. podia correr bem a início, mas acabaríamos por fartar-nos um do outro e, por isso, não valia a pena estarmos a fazer-nos perder tempo, porque ambos queríamos mais do que isso.

um gajo recusar uma relação completamente casual, carnal até e sem qualquer compromisso… i know right? o joão guilherme do passado atirar-se-ia ao ar, reprovaria e chamar-me-ia nomes. mas eu também nunca quis ser igual aos outros. a verdade é que continuámos amigos – apesar de hoje já não o sermos –, está casada e à espera do primeiro filho, se não o teve já.

esforcei-me, portanto, por ser melhor. melhor pessoa, melhor amigo, melhor tudo. corrigi traços da minha personalidade que eram vistos como defeitos, mas só depois de eu perceber que o eram, por vezes tarde demais, porque com eles afastava pessoas de quem gostava. mas também sempre tive a humildade de reconhecer que estava errado quando o estava e nunca tive medo de pedir desculpa quando a situação assim o exigia.

sofri desgostos e desapontamentos, amorosos e não só, que deixaram marcas. físicas, espirituais e emocionais. aprendi que se trata tão-só de uma questão de expectativas e de como geri-las. fui aqui escrevendo sobre tudo isso. este espaço tem sido um cemitério dessas angústias. mas se há coisa que também fiz foi não deixar, nunca, que toda essa negatividade, a maneira como fui (mal)tratado ao longo do tempo fizessem de mim uma pessoa mergulhada no rancor ou na amargura e que isso se reflectisse na minha relação com os outros.

nunca fui um bom namorado, também nunca o escondi. não nasci ensinado. tentei sempre ser a melhor versão de mim mesmo. escrevi aqui também sobre isso em várias ocasiões. sempre fui meio trapalhão, por vezes esquecido, mas nunca negligente no amor. tenho as minhas falhas, cometi erros, mas aprendi com eles e esforcei-me sempre por ser melhor: melhor amigo, melhor parceiro, melhor amante.

as relações servem também para isso, pare crescer juntos. quero acreditar que fui sendo cada vez melhor companheiro, aprendendo e sempre atento aos sinais, preocupado com os detalhes, sempre à procura da palavra certa – por vezes sem consegui-lo, é certo – a dizer no momento em que era mais necessária. fui dando sempre mais de mim e, ao dar todo o meu ser, fui crescendo. em mim, com ela, em nós.

esforcei-me, pois, por ser um outro barney.

enquanto ia trabalhando nestes detalhes que eram, na verdade, maiores do que eu, fui descurando outros aspectos fundamentais, que não sabia existirem, que acabaram por fazer-me deitar tudo a perder. estive tanto tempo solteiro que acabei por ser um merdas. uma merda. o barney que eu quis ser não era melhor do que o barney que eu queria não ser e que, se formos a pensar bem, até se revelou melhor do que como muita gente o pintava.

já fui do pior tipo de pessoa que há: já traí, já magoei, já fiz chorar. mas, lá está, aprendi com os erros e foi por isso que prometi e jurei três vezes sobre os lábios e outras três sobre o coração que ia e queria ser melhor.

mas de que vale dizer que faço e aconteço, que protejo e não deixo que mal nenhum aconteça, se acabo por fazer precisamente o contrário, com pequenas atitudes e comportamentos – irreflectidos e sem intenção, é certo – que contrariam tudo aquilo em que penso, acredito e tudo o que defendo? se acabo por ser precisamente eu a origem e o causador do sofrimento e do afastamento?

de que vale querer ser o super-homem, se depois nem o clark kent consigo ser? só o joão guilherme? um merdas, portanto? um merdas tão grande que acabo por afastar a pessoa mais importante para mim, ao ponto de a fazer deixar de acreditar que posso voltar a ser a pessoa que quero ser e que em tempos fui?

eu sou uma merda.
isto é uma merda, o mundo é uma merda, é tudo uma merda.

07/03/2021

metade.

música — João Oliveira @ 15:49

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02/03/2021

e eu, especado, a olhar

ensaio — João Oliveira @ 17:26

um vazio profundo. observo o abismo em frente, em pensamentos absorto, e mal me apercebo que ele me fita de volta. a música não me entretém, quase me enfada, na verdade, porque falha a sua tarefa de fazer-me esquecer este marasmo que me rodeia, de transportar-me para lá de mim.

estalo os dedos, impaciente, um tique nervoso que não reúne consenso entre os que me dizem que devo fazê-lo e os que me rogam que o não faça, mas que não entendem que o seu único propósito mais não é do que aliviar a dor que se vai instalando em mim. esqueço-me que é também o corpo a pedir-me mais um cigarro, um pachorrento cigarro, que mais não faz do que adiar esta impaciência que não consigo, ou não quero, explicar.

já bebi café? levanto a cabeça do caderno onde faço estes rabiscos e conto duas chávenas entornadas sobre a mesa. também não seria a cafeína que iria fazer alguma coisa por mim hoje. o terceiro fica para depois.

deixo-me ficar a observar o abismo em frente e imagino como seria perder-me no seu abraço. sinto-o a chamar por mim, enquanto reflicto: não sei se tenho forças para recusar o seu chamamento. ou, sequer, a vontade.

o que tenho para fazer perde importância. o que me importa e interessa também não faço. não consigo.

abandono os rabiscos do caderno porque, apesar de habitual, nada do que escrevo sai como quero à primeira, o que contribui para a minha impaciência. não leio, porque as palavras não se fixam na minha mente, que permanece fixada no abismo em frente. tudo o que imagino na minha cabeça não concretizo e a impaciência leva-me a tentar estalar novamente os dedos, entre pachorrentos cigarros e chávenas de café engolidas num trago.

imagino-me a observar-me a mim próprio, de fora, enquanto fito perante mim o abismo que me chama. tudo o resto passa-me ao lado, indiferente, como o fumo que se esvai do cigarro que matei no café entornado ao meu lado.

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05/02/2021

definho.

música — João Oliveira @ 04:15

27/01/2021

desculpa

manifesto — João Oliveira @ 01:24

ontem sonhei contigo. estavas à porta da escola, à minha espera, de lágrimas nos olhos, como que a adivinhar aquilo que ainda não tive coragem de dizer-te.

não vou poder cumprir a promessa que te fiz.

desculpa, avô.

09/01/2021

hello darkness, my old friend

manifesto — João Oliveira @ 18:28

não durmo há mais de três dias. dói-me o corpo, a suplicar-me por descanso, e luto contra a exaustão com as poucas armas que o café e alguns estupefacientes me dão, porque aguentar estoicamente acordado, com os olhos a arder e o corpo a latejar, é o que me mantém longe dos pesadelos que me aterrorizam as noites. não quero voltar a adormecer.

onde é que nos refugiamos quando o sono não nos deixa descansar?

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01/07/2020

sacana (2)

manifesto — João Oliveira @ 00:01

a minha mãe contou-me, há uns anos, que o meu avô tinha guardado alguma mágoa por eu nunca ter escolhido o apelido dele para o meu nome profissional na carteira de jornalista. escolhi os meus dois nomes próprios e o apelido do meu pai, mas a verdade é que poderia ter escolhido o meu primeiro nome e os apelidos da minha mãe e do meu pai. na altura não me lembrei disso, não pensei nisso, mas andei estes anos todos a remoer e a matutar no assunto.

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