Critica por favor o meu elevado ego

28/01/2020

A promessa

música — João Oliveira @ 23:32

I’m sorry, but I’m just thinking of the right words to say
I know they don’t sound the way I planned them to be
But if you wait around a while, I’ll make you fall for me
I promise, I promise you

I’m sorry, but I’m just thinking of the right words to say
I know they don’t sound the way I planned them to be
And if I had to walk the world, I’d make you fall for me
I promise you, I promise you I will

I will
I will

(continuar a ler)

23/01/2020

Estragado

manifesto — João Oliveira @ 19:07

Foi apenas aos 31 anos que soube o que era alguém terminar uma relação comigo. Cara a cara, em pessoa, com coragem, de forma mais ou menos humana. Até então foram relações atrás de relações que acabaram em traição ou votadas ao silêncio e ao abandono. Uma ou outra uma mensagem de despedida, impessoal e vazia de sentimento.

Quando finalmente aconteceu, em Novembro de 2018, demorei alguns dias a identificar aquilo que na altura não sabia o que era: um ligeiro ataque de pânico.

O coração a bater mais rápido, na expectativa, eu a debater-me para controlar a respiração e não hiperventilar, sem que deixasse transparecer o que estava a acontecer nas minhas entranhas. Sentia o coração na boca e fazia de tudo para escondê-lo.

Hoje é quinta-feira. Ela mal me fala desde ontem à noite e acabou de dizer-me que falamos no sábado, não sei se antes ou depois do concerto que combinámos ir ver. Rejeitou todas as tentativas de ir ter com ela e os sintomas de pânico regressaram, mas hoje aceito-os com um triste sorriso.

Não sei o que vai na cabeça dela, não quer falar comigo e diz-me que, hoje, não vale a pena ser teimoso. Ela pensa que não tenho como ir ter com ela, mas, hoje sim, vou ser obstinado e vou arranjar maneira, sem plano b, para o caso de a coisa correr mal. Sempre consegui no passado, não era hoje que ia desistir.

Nunca fui um bom namorado, já o escrevi aqui. A série de relações falhadas e a maneira como quase todas elas acabaram fizeram-me assim. Fechei-me sobre mim mesmo, habituei-me a estar sozinho, sem deixar entrar quase ninguém.

Ergui muros à minha volta para não voltar a ser magoado. Não se pode partir um coração já partido e remendado. Se não deixar ninguém entrar, ninguém pode sair, certo?

Até que ela apareceu na minha vida, fruto do acaso. Melhor do que tu procuras é em quem tu tropeças.

Eu não faço de propósito, mas deitar abaixo estas barreiras não é fácil e eu não sei se ela tem a força ou a vontade suficientes para as derrubar. Sabe Deus que quero que o faça. E hoje os sintomas de pânico regressaram.

Ainda não somos namorados, disse-lhe algures nas escadas do Lux durante a noite de fim de ano e ela ficou a olhar para mim, de ar intrigado.

Não somos namorados, mas é como se o fôssemos. Apaguei o Tinder, espero que finalmente de vez. As pessoas que lá encontrava eram desinteressantes e já só usava aquilo para passar o tempo quando estou aborrecido.

Um destes dias, ela perguntou-me que pessoa ela era para mim. Isto porque sempre que ela me pergunta sobre algo para que não tenho resposta, tenho sempre uma pessoa, amigos, pessoas que sigo, a quem perguntar, qualquer tema que seja o tema, da política à ciência, gramática ou cultura geral, seja através do Twitter, do WhatsApp ou do Instagram. Respondi-lhe, com a voz embargada, que ela era a pessoa para o resto da minha vida, mas não sem que tivéssemos dormido nessa noite separados, cada um num canto da cama, porque, detrás de uma das muralhas que ergui, já lho tinha dito antes e não queria voltar a sentir-me vulnerável da mesma maneira. Porquê? Não me perguntem, porque eu também não sei responder.

Estão a ver aquelas cenas dos filmes ou das séries em que o personagem principal olha para a família, ao longe, e sorri, porque se sente feliz e sortudo pela vida que construiu? Noutro dia imaginei-me num cenário idêntico e foi a ela que a vi, com dois putos a brincar de volta dela.

Merda, estou a ficar velho, estragado e cada vez mais lamechas.


14/01/2020

Novamente

poesia — João Oliveira @ 19:08

Às vezes

Ter o mundo
ao contrário
não basta para ficar

Mas depois

Ela deixa-se
adormecer
nos meus braços

Indefesa

Agarra-me
em sobressalto
quando os sonhos são sombrios

Beijo-lhe a fronte
aconchego-a

E entrego-a novamente
à serenidade de quem passa
pela vida a cantar

E o mundo
torna a girar
e a fazer sentido

Novamente


07/01/2020

Novo ano

poesia — João Oliveira @ 23:46

A porta bateu
mas desta vez não fui atrás

Tu és o sítio onde quero estar
e onde eu irei sempre regressar

estejamos
onde
estivermos.

:: Lisboa, 3 de Janeiro de 2020


19/09/2019

Capítulo último

manifesto, prosa — João Oliveira @ 23:39

Nessa noite, chegou a casa, cansado. Havia muito tempo que não saía assim do trabalho, completamente de rastos, a querer apenas estar horas no duche, a levar com a água quente no corpo dorido, enfiar-se debaixo dos lençóis e dormir até o despertador o acordar, sobressaltado, de manhã.

No momento em que ia a colocar a chave na fechadura, lembrou-se da discussão dessa manhã e o que o esperava do outro lado da porta. Respirou fundo, com a chave ainda suspensa no ar, rodou a fechadura e entrou, decidido a enfrentar a fúria da Sara.

Seguiram-se as habituais horas de discussão.

Portas a bater, murros na mesa, gritos de um lado para o outro, entre divisões diferentes da casa até.

Ficaram horas naquilo, até que, exaustos e emocionalmente esgotados, a casa caiu num silêncio gritante, o ar de cortar à faca. Cada um se arranjou para dormir, entraram, mudos, na cama, sem se despedir e desligaram as luzes, a escuridão como que a esconder os despojos de uma relação que há muito terminara.

Ele deixou-se ficar, deitado de costas, a fitar o tecto escuro que parecia devolver-lhe o olhar, enquanto ela dormia serenamente ao lado, como se a discussão dessa noite não tivesse acontecido, a enésima a juntar à lista.

Estava embrenhado nos pensamentos enquanto ia, aos poucos, apercebendo-se do quão miserável a sua vida se tinha tornado desde que decidira voltar para ela. Vivia numa ilusão, a maior da sua vida, totalmente deslumbrado pela ideia que tinha dela, sem conseguir ver para além da sua obsessão apaixonada. Tinha colocado a Sara num pedestal e recusava-se, inconscientemente, a deixá-la, ou fazê-la, cair daquele sítio divinizado que criara à medida dela.

Estes pensamentos foram assolando-o noite após noite, todos os dias da semana.

Acordava todas as manhãs exausto, pouco depois de ter conseguido silenciar as vozes que lhe gritavam para ir embora, fugir, ir viver, ser feliz. As mesmas vozes que o atormentavam e que tinha conseguido adormecer poucas horas antes, por breves momentos, os poucos instantes de sossego que tinha. Ao fim do dia regressava, ainda mais cansado, àquela rotina de discussões atrás de discussões em que aquela relação se tinha tornado.

Aos poucos, começava a ver o que ela realmente era e o quanto aquela relação exigia dele e o desgastava.

Ele nunca tinha sido mais do que um brinquedo nas mãos dela e ele conseguia agora perceber isso. Ele apenas servia para a sua satisfação, pouco mais, e ela tinha-o tornado fraco, fácil de manipular, ao sabor da sua vontade. Percebia agora o que os amigos tinham tentado, em vão, dizer-lhe.

Olhando em retrospectiva, percebeu que estava mais sozinho do que nunca.

Aqueles que sempre se tinham preocupado consigo foram os mesmos que tinha afastado, sem pensar duas vezes. O André, a Sofia, o João. Tudo por causa dela. Sempre sob o controlo dela. Ele não tinha sido mais do que um boneco nas suas mãos, um plano, um projecto. Ela apenas o tinha moldado à sua imagem, para fazer dele o que queria, a seu bel-prazer.

Chegou o dia em que decidiu que bastava. Não valia a pena permanecer mais numa relação de um só sentido. Levantou-se da cama, arrumou calmamente as suas coisas e saiu, sem deixar recado, destino ou direcção. Foi com esta música que saiu a cantarolar em passo decidido pela rua, noite fora. Com o bater da porta, saiu de casa para nunca mais voltar. Deixou-a para trás e foi ser feliz.


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