Critica por favor o meu elevado ego

21/03/2020

amor em tempos de pandemia (1)

manifesto — João Oliveira @ 19:07

“se sobrevivermos a isto, casamos”, disse-me ela ao ouvido, num sussurro que me percorreu espinha abaixo e me deixou de sorriso rasgado na cara.


23/01/2020

Estragado

manifesto — João Oliveira @ 19:07

Foi apenas aos 31 anos que soube o que era alguém terminar uma relação comigo. Cara a cara, em pessoa, com coragem, de forma mais ou menos humana. Até então foram relações atrás de relações que acabaram em traição ou votadas ao silêncio e ao abandono. Uma ou outra uma mensagem de despedida, impessoal e vazia de sentimento.

Quando finalmente aconteceu, em Novembro de 2018, demorei alguns dias a identificar aquilo que na altura não sabia o que era: um ligeiro ataque de pânico.

O coração a bater mais rápido, na expectativa, eu a debater-me para controlar a respiração e não hiperventilar, sem que deixasse transparecer o que estava a acontecer nas minhas entranhas. Sentia o coração na boca e fazia de tudo para escondê-lo.

Hoje é quinta-feira. Ela mal me fala desde ontem à noite e acabou de dizer-me que falamos no sábado, não sei se antes ou depois do concerto que combinámos ir ver. Rejeitou todas as tentativas de ir ter com ela e os sintomas de pânico regressaram, mas hoje aceito-os com um triste sorriso.

Não sei o que vai na cabeça dela, não quer falar comigo e diz-me que, hoje, não vale a pena ser teimoso. Ela pensa que não tenho como ir ter com ela, mas, hoje sim, vou ser obstinado e vou arranjar maneira, sem plano b, para o caso de a coisa correr mal. Sempre consegui no passado, não era hoje que ia desistir.

Nunca fui um bom namorado, já o escrevi aqui. A série de relações falhadas e a maneira como quase todas elas acabaram fizeram-me assim. Fechei-me sobre mim mesmo, habituei-me a estar sozinho, sem deixar entrar quase ninguém.

Ergui muros à minha volta para não voltar a ser magoado. Não se pode partir um coração já partido e remendado. Se não deixar ninguém entrar, ninguém pode sair, certo?

Até que ela apareceu na minha vida, fruto do acaso. Melhor do que tu procuras é em quem tu tropeças.

Eu não faço de propósito, mas deitar abaixo estas barreiras não é fácil e eu não sei se ela tem a força ou a vontade suficientes para as derrubar. Sabe Deus que quero que o faça. E hoje os sintomas de pânico regressaram.

Ainda não somos namorados, disse-lhe algures nas escadas do Lux durante a noite de fim de ano e ela ficou a olhar para mim, de ar intrigado.

Não somos namorados, mas é como se o fôssemos. Apaguei o Tinder, espero que finalmente de vez. As pessoas que lá encontrava eram desinteressantes e já só usava aquilo para passar o tempo quando estou aborrecido.

Um destes dias, ela perguntou-me que pessoa ela era para mim. Isto porque sempre que ela me pergunta sobre algo para que não tenho resposta, tenho sempre uma pessoa, amigos, pessoas que sigo, a quem perguntar, qualquer tema que seja o tema, da política à ciência, gramática ou cultura geral, seja através do Twitter, do WhatsApp ou do Instagram. Respondi-lhe, com a voz embargada, que ela era a pessoa para o resto da minha vida, mas não sem que tivéssemos dormido nessa noite separados, cada um num canto da cama, porque, detrás de uma das muralhas que ergui, já lho tinha dito antes e não queria voltar a sentir-me vulnerável da mesma maneira. Porquê? Não me perguntem, porque eu também não sei responder.

Estão a ver aquelas cenas dos filmes ou das séries em que o personagem principal olha para a família, ao longe, e sorri, porque se sente feliz e sortudo pela vida que construiu? Noutro dia imaginei-me num cenário idêntico e foi a ela que a vi, com dois putos a brincar de volta dela.

Merda, estou a ficar velho, estragado e cada vez mais lamechas.


19/09/2019

Capítulo último

manifesto, prosa — João Oliveira @ 23:39

Nessa noite, chegou a casa, cansado. Havia muito tempo que não saía assim do trabalho, completamente de rastos, a querer apenas estar horas no duche, a levar com a água quente no corpo dorido, enfiar-se debaixo dos lençóis e dormir até o despertador o acordar, sobressaltado, de manhã.

No momento em que ia a colocar a chave na fechadura, lembrou-se da discussão dessa manhã e o que o esperava do outro lado da porta. Respirou fundo, com a chave ainda suspensa no ar, rodou a fechadura e entrou, decidido a enfrentar a fúria da Sara.

Seguiram-se as habituais horas de discussão.

Portas a bater, murros na mesa, gritos de um lado para o outro, entre divisões diferentes da casa até.

Ficaram horas naquilo, até que, exaustos e emocionalmente esgotados, a casa caiu num silêncio gritante, o ar de cortar à faca. Cada um se arranjou para dormir, entraram, mudos, na cama, sem se despedir e desligaram as luzes, a escuridão como que a esconder os despojos de uma relação que há muito terminara.

Ele deixou-se ficar, deitado de costas, a fitar o tecto escuro que parecia devolver-lhe o olhar, enquanto ela dormia serenamente ao lado, como se a discussão dessa noite não tivesse acontecido, a enésima a juntar à lista.

Estava embrenhado nos pensamentos enquanto ia, aos poucos, apercebendo-se do quão miserável a sua vida se tinha tornado desde que decidira voltar para ela. Vivia numa ilusão, a maior da sua vida, totalmente deslumbrado pela ideia que tinha dela, sem conseguir ver para além da sua obsessão apaixonada. Tinha colocado a Sara num pedestal e recusava-se, inconscientemente, a deixá-la, ou fazê-la, cair daquele sítio divinizado que criara à medida dela.

Estes pensamentos foram assolando-o noite após noite, todos os dias da semana.

Acordava todas as manhãs exausto, pouco depois de ter conseguido silenciar as vozes que lhe gritavam para ir embora, fugir, ir viver, ser feliz. As mesmas vozes que o atormentavam e que tinha conseguido adormecer poucas horas antes, por breves momentos, os poucos instantes de sossego que tinha. Ao fim do dia regressava, ainda mais cansado, àquela rotina de discussões atrás de discussões em que aquela relação se tinha tornado.

Aos poucos, começava a ver o que ela realmente era e o quanto aquela relação exigia dele e o desgastava.

Ele nunca tinha sido mais do que um brinquedo nas mãos dela e ele conseguia agora perceber isso. Ele apenas servia para a sua satisfação, pouco mais, e ela tinha-o tornado fraco, fácil de manipular, ao sabor da sua vontade. Percebia agora o que os amigos tinham tentado, em vão, dizer-lhe.

Olhando em retrospectiva, percebeu que estava mais sozinho do que nunca.

Aqueles que sempre se tinham preocupado consigo foram os mesmos que tinha afastado, sem pensar duas vezes. O André, a Sofia, o João. Tudo por causa dela. Sempre sob o controlo dela. Ele não tinha sido mais do que um boneco nas suas mãos, um plano, um projecto. Ela apenas o tinha moldado à sua imagem, para fazer dele o que queria, a seu bel-prazer.

Chegou o dia em que decidiu que bastava. Não valia a pena permanecer mais numa relação de um só sentido. Levantou-se da cama, arrumou calmamente as suas coisas e saiu, sem deixar recado, destino ou direcção. Foi com esta música que saiu a cantarolar em passo decidido pela rua, noite fora. Com o bater da porta, saiu de casa para nunca mais voltar. Deixou-a para trás e foi ser feliz.


12/07/2019

Estrelas e constelações que já não vemos

manifesto — João Oliveira @ 04:11

Há momentos em que a ressaca bate com mais força do que aquela a que estás habituado e ficas sem saber ao certo se é por causa dos excessos da noite anterior ou apenas a dura realidade a recordar-te de que o teu coração continua irremediavelmente partido e sem ninguém para ajudar-te a recolher os cacos.

Achavas, ingénuo, que a última vez ia ser mesmo a última vez, mas foi apenas mais uma desilusão na já longa lista de desapontamentos que vais somando. Sonhos arruinados, esperanças despedaçadas, futuros apagados.

Costuma dizer-se que não se pode partir um coração partido, mas quantas vezes aguenta um coração ser partido? Não interessa, na verdade, porque um coração vai acabar sempre por ser partido, aconteça o que acontecer.

Acostumei-me a ver-te acordar a meu lado, o teu perfil desenhado pela luz difusa que entrava pela janela enquanto te preparavas para o dia que estavas prestes a enfrentar. Eu deixava-me estar, deitado a observar-te apenas, deliciado, questionando-me se tudo não seria ainda parte de um sonho de que acabara de acordar. Tu eventualmente reparavas e ficavas de repente sem jeito, a face a enrubescer e um sorriso a iluminar-te ainda mais a face.

Eram esses os momentos mais preciosos, aqueles em que sentia o tempo suspenso ao nosso redor e que me faziam questionar-me que raio teria eu feito nesta ou numa outra vida para que tu tivesses escolhido estar comigo.

Eram dias felizes. Frios, mas felizes.

Recordo as nossas caminhadas a dois por aquelas ruas escuras e frias desse Porto que não me canso de adorar, o calor da tua mão na minha a aquecer-me a alma e o coração. O teu sorriso a rasgar-te a face, de orelha a orelha, o olhar tão apaixonado com que me fitavas nos momentos em silêncio, um silêncio cúmplice e de quem não quer mais nada senão estar ali. Aquela vista magnífica sobre o Douro que tantas vezes me levaste a admirar – era das poucas coisas que te pedia sempre que te visitava – tinha o condão e a virtude de sossegar-me o espírito, a tua presença a tranquilizar-me o ser, como só tu conseguias fazer.

Eram poucas as noites bem dormidas, quando estava longe de ti. Passávamos horas noite dentro a conversar, a matar as saudades que a distância mais não fazia senão alimentar. Fazíamos planos a dois, os sítios onde queríamos ir, as cidades que queríamos visitar, as pessoas que queríamos conhecer.

Mas um dia deixaste de querer estar ali, onde também eu estava. Eu já sabia o que querias dizer-me quando fomos jantar naquele último dia, mas, ainda assim, despedaçaste-me o coração enquanto me dizias que já não querias estar comigo.

E, de repente, o quarto esfriou, assim que a porta bateu atrás de ti e tu descias as escadas e entravas no táxi que te levaria para longe, tão longe, fora do alcance. Retirei-me para dentro de mim mesmo, enquanto tu te retiravas da minha vida. Durante mais de um mês não lavei os lençóis onde te deitaste só para que a cama não perdesse o teu cheiro. 

Hoje sorrio sempre que vou à varanda que dá para as traseiras do prédio e onde passámos longas noites a observar as estrelas e constelações que te ensinei a ver, enquanto me dizias que não gostavas do Harry Potter. Aposto que hoje já as esqueceste.

Nunca gostei daqueles chavões que tantos partilham nas redes sociais, aquelas frases inspiracionais quase sempre vazias de significado, como aquela velhinha “não chores porque acabou, sorri porque aconteceu”, mas acho que, para ti, posso abrir uma excepção. Nem tudo dura para sempre, as pessoas não ficam para sempre. Há pessoas que entram nas nossas vidas, outras que saem e há também aquelas que expulsamos. Cada uma delas com algo para ensinar-nos, para fazer-nos crescer. Não, nem todas as pessoas ficam, mas deixam sempre algo delas dentro de nós. Tu foste, para o bem e para o mal e até ao fim, uma das melhores coisas que me aconteceu e isso eu nunca esquecerei.


01/05/2017

Destroçado (2)

manifesto — João Oliveira @ 03:31

E eu corri atrás dela. Sabe Deus o que corri atrás dela. Procurei-a para ter uma resposta, mas sempre encontrei o silêncio. Procurei-a, procurei dentro de mim, mas ela não quis dar-me as respostas por que eu tanto ansiava, deixando-me na angustiante dúvida de não saber se o mal estaria em mim.

Continuo hoje, à distância de um tempo que ainda não consigo medir, nem sei se quero conseguir medir, sem essas respostas que sempre quis saber.

Ela não me deixou beijá-la à porta do teatro na noite em que a conheci, porque ainda estava com alguém, e eu respeitei-a mais por isso. Mas se ela conseguiu fazer de mim a melhor versão que já me conheci, o abandono, a ausência e a solidão a que me votou quando decidiu abandonar-me fizeram-me aquilo que hoje sou: uma sombra do que já fui, amargurado e à procura de voltar a ser quem já fui.

Perdi a fé em mim e nas pessoas. No amor.

Ela deixou-me sem uma palavra e tem sido nesse silêncio que tenho vivido desde então. Não há maior traição a alguém que amamos do que votá-los ao esquecimento. Quem trai ou abandona não sabe, não imagina, o mal que está a causar na outra pessoa. Destrói as suas perspectivas para o amor, as relações futuras, sejam elas amorosas ou não, e, acima de tudo, a sua auto-estima, a confiança em si próprio e a sua paz interior.

É isso.

Desde que me deixou, decidi encher a cabeça, tentar não pensar (tanto) nela. Tenho andado a viajar, a conhecer novos sítios e novas pessoas, a experimentar novas coisas, a ocupar o tempo e, mais importante que isso, a mente. Tento não me lembrar dela, recordar que um dia dormimos na mesma cama, que era com ela, sei-o hoje, que eu queria partilhar o resto da minha vida.

Mas, tal como ela decidiu proteger-se, ao perceber que estava a apaixonar-se por alguém que não sabia se sentia o mesmo, também eu acabei por fazê-lo. Removi-a da minha lista de amigos no Facebook. Sinal dos tempos, eu sei, que há-de fazer-se? Confesso que, se fosse hoje, teria feito a coisa de outra maneira, mas, longe da vista, longe do coração, pensava eu. Acreditava eu, ingénuo, de que seria apenas uma questão de tempo até conseguir esquecê-la e seguir em frente.

Enganei-me. Longe da vista, longe do coração? Tudo tretas. Estava, sei-o agora, profundamente, inesperadamente, irremediavelmente apaixonado.

É que há momentos em que somos apanhados desprevenidos e com a guarda em baixa. É nesses momentos em que ela decide aparecer, apoderar-se da minha mente e vencer-me. Impotente, sucumbo à sua presença, procurando perceber porque ainda deixo que isso aconteça. Talvez seja por isso que bebo cada vez mais quando saio à noite, quase ao ponto da inconsciência.

Talvez? É claro que é por causa dela.

Uma tentativa desesperada de a manter à distância, longe da sanidade por que tanto luto. São estes os pequenos, poucos, momentos em que ela está lá longe, empurrada para o fundo do meu sub-consciente, onde permanece, uma presença a pairar, à espera da melhor altura para sair. É por causa disto que eu sempre te disse que eras mais forte do que eu.

É por isso que, ainda hoje, me arrepio sempre que olho para a fotografia que ainda guardo tua.

Já ultrapassei grandes amores que terminaram. Já sarei feridas provocadas por um coração, o meu, partido. Não é a primeira vez que passo por isto, por isso não é algo que me é, de todo, desconhecido. Mas, a esta distância toda, não consigo entender porque está a custar tanto. Não sei contar o tempo que passou desde que ela me deixou, tornou-se um exercício demasiado doloroso para enfrentar.

Simplesmente não consigo.

Ela deixou um buraco no meu coração, os meus demónios encontraram nele abrigo e é dele de que agora se alimentam.

(continua…)

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