Critica por favor o meu elevado ego

12/04/2020

joana

manifesto — João Oliveira @ 22:44

a madrugada do dia 1 de janeiro de 2006 foi a primeira vez que disse “amo-te” a alguém. nessa noite, adormecemos lado a lado, embriagados e cada um enfiado no seu saco-cama, no canto de uma sala de uma qualquer moradia no meio do campo nos arredores de coimbra.

olhando em retrospectiva, parece-me óbvio que a não amasse. não creio mesmo que a i. acredite, ou tenha acreditado muito na altura, que eu realmente a amava. era jovem, dezanove anos acabadinhos de fazer, na ânsia de querer ter alguém a meu lado e a quem dizer que a amava.

mas a verdade é que, até à noite de 23 de fevereiro de 2020, foi a única pessoa a quem alguma vez tinha dito “amo-te”.

é, talvez, a única palavra de que tenho mesmo medo, mas que tenho aprendido a usar.

ultimamente tenho andado mais introspectivo e, há dias, pus-me a pensar nos últimos dez anos da minha vida, nas voltas e trambolhões que ela foi dando. às vezes dá-me para isto. apercebi-me eu que não posso dizer que tenha amado verdadeiramente alguém que não sejam os meus amigos mais chegados ou a minha família.

alguns dos que me conhecem, a mim e a algumas páginas de história dos últimos dez anos da minha vida, lembram-se automaticamente da m., mas posso dizer, com segurança, que não foi amor aquilo que sentia naquela altura. podia achar que sim e todos os que nos rodeavam pensavam da mesma forma, ao ponto de acreditarem que ainda tenha uma qualquer réstia de sentimento e de esperança, por ela e por nós.

estão errados.

a esta distância, depois de tudo o que aconteceu e analisando racionalmente tudo o que se passou, a m. mais não era do que uma fixação, uma obsessão, uma paixoneta daquelas que estão destinadas a não durar muito ou a acabar mal. foi o que acabou por acontecer.

olho hoje para esse joão guilherme, fico a pensar como raio foi ele capaz de se deixar enredar nessa novela, de se rebaixar e deixar humilhar daquela maneira, e apercebo-me do quanto cresci enquanto homem.

houve outras m. pelo caminho, porque, na altura, eu tinha um grave problema com a letra m, mas ninguém que tenha, de uma forma ou de outra, deixado uma marca significativa. até porque nunca escrevi sobre elas.

até que chegamos à xis.

chegamos à xis e eu não sei o que dizer sobre a xis. foi verdadeiramente o meu grande heartbreak, quem conseguiu deixar-me na merda durante tantos e longos anos que nem sei contá-los.

não posso dizer, de todo, que a não tenha amado, porque terminou tudo tão depressa e tão de repente que nem deu para perceber o que na verdade foi que aconteceu. mas sim, acredito mesmo que tenha amado a xis – e ela a mim – e que foi isso que invariavelmente precipitou o nosso fim.

até que 31 de outubro de 2019 chegou. mercúrio a entrar em retrógrado, mas, ainda assim, a vida a começar a sorrir-me, finalmente, depois do ano de merda que 2018 foi.

começando pelo princípio, como qualquer boa história, a joana entrou na minha vida e eu na dela de uma forma que nenhum de nós alguma vez imaginou que pudesse acontecer. por vezes ponho-me a pensar no destino e na maneira como a vida parece dar um ponto que pensamos ter ficado solto para mais tarde acabar por dar o nó de que nós já tínhamos perdido o fio.

costumo pensar sempre, por exemplo, naquele homem, português por sinal, que morreu num ataque terrorista no sri lanka, no início de 2019.

o rui era engenheiro e estava em lua de mel, com a mulher, com quem tinha casado dias antes. quando li a história deles, um pensamento assombroso cruzou-me os pensamentos: “no dia em que ele a pediu em casamento, já estava escrito que ia morrer”.

e outros tantos se lhe seguiram: e se a companhia aérea que os levou ao sri lanka tivesse partido a horas de portugal? ou se se tivesse atrasado uns minutos ou umas horas que fosse? ou a bagagem se tivesse extraviado? se qualquer coisa tivesse acontecido que mudasse o rumo dos acontecimentos e eles não estivessem ali, naquele lugar, naquele preciso momento.

mas ficar a pensar nisto não é saudável.

não é, de todo, saudável porque dás por ti e estás a repensar toda a tua vida, no que fizeste e não fizeste, no que poderias ter feito ou deixado de fazer para mudar esse teu destino, se é que isso é sequer capaz, que te trouxe até aqui, neste preciso momento, para leres estas linhas que escrevo. acabas por entrar numa espiral de que podes não conseguir escapar.

mas isto para dizer o quê? para diz que se a joana não tivesse precisado daquele bilhete para aquele alive, em 2018; se a minha tia não tivesse que vender o bilhete dela; se a outra parvalhona que já tinha dito que comprava o meu bilhete não tivesse sido a única pessoa com “problemas de rede” dentro do recinto porque muito provavelmente arranjou um convite ou um bilhete mais barato; se eu não a tivesse adicionado no facebook e seguido no instagram e ela a mim; se o amigo dela não tivesse precisado de bilhetes para o lisb-on e ela não tivesse vindo falar comigo; se qualquer uma das outras relações que eu e ela tivemos não tivesse falhado…

se tudo isso e quaisquer outros eventos que influenciaram o curso dos nossos caminhos ao longo do tempo não tivessem acontecido, eu não teria convidado a joana para ir ver os ornatos violeta ao rosa mota naquela noite de halloween e não estaríamos hoje, aqui e agora.

ou se calhar até teria convidado e ela teria dito que não, mas isso abre a porta a toda uma série de linhas de tempo e cenários alternativos que nem quero imaginar as infinitas possibilidades que levariam a que estivéssemos hoje, aqui e agora.

regressando ao presente.

no dia 23 de fevereiro, senti aquele “também te amo” que disse à joana no meio da pista do lux, mas foi alguns dias depois, naquela tarde de 7 de março, quando lhe sussurrei “amo-te” ao ouvido, enquanto a cascata despejava furiosamente o rio contra o leito cá em baixo, que fiquei a entender o que é realmente amar alguém.

desde então tem sido muito mais fácil dizer-lhe que a amo.

mas é que um “eu também te amo” é diferente do que um “amo-te”, muito mais diferente do que um “amo-te” de que não se está à espera de ouvir, embora se saiba que ele existe dentro de um peito que também amamos e que passou a bater por nós, passou a ser nosso.

ela acha que eu nunca vou gostar dela como gostei das outras antes dela, mas a verdade é que ela nem sonha que eu nunca amei alguém como a amo a ela.

há uns tempos, vivia completamente amargurado, porque acreditava que não voltaria a gostar de alguém como já gostei antes e não sabia confessar-lhe isto, porque achava no fundo de mim que estava, de alguma forma, a enganá-la e não conseguia viver com isso. os meus amigos diziam-me que nunca me tinham visto tão apaixonado e eu apenas sorria, enquanto engolia essa tristeza. estava estragado, achava eu, ao ponto de acreditar que nunca iria apaixonar-me pela joana.

estava era parvo, é o que eu estava.

de vez em quando a joana apanha-me a observá-la, de olhar completamente embevecido e absorto nela, a admirá-la, a adorá-la, a tentar “engoli-la” com os olhos. às vezes estamos deitados na cama e eu só a encho de beijos, enquanto ela me pergunta, entre risos, “pronto, já queres foder, não é?”, mas tudo o que estou a fazer é só isso: a adorá-la.

noutro dia estávamos sentados na cama, a preparar-nos para dormir, e ela apanhou-me num destes momentos. perguntou-me o que se passava e eu só soube responder-lhe “ó joana, eu amo-te tanto”.

foda-se, como raio alguma vez achei que não amava esta miúda?

a mão dela encaixa perfeitamente na minha e eu entrelaço o meu dedo indicador no mindinho dela quando vamos passear. inconscientemente, o meu polegar cobre o dela, porque quero protegê-la daquilo que a vida nos atira ao caminho.

mas ela não precisa de mim. não precisa que eu olhe por ela enquanto dorme, porque é mulher, e irrita-a solenemente que eu apenas escreva sobre ela quando está a dormir [1][2][3].

é inteligente e cheia de convicções, as delas e que eu respeito, embora tenhamos as nossas discórdias. ela não mesmo precisa de mim e eu vivo constantemente aterrorizado que chegue o dia em que ela acorde e perceba isso mesmo: que está farta das minhas merdas, que não precisa de mim e que, se calhar, até está melhor sem mim e quer ir embora.

ela é forte, embora por vezes se deixe ir abaixo, mas tem sabido lidar, melhor ou pior, é certo, com as contrariedades que lhe têm surgido pelo caminho. mas a verdade é que estamos aqui os dois, juntos, a enfrentar a vida de peito aberto, sem medos. por isso a coisa só pode ter corrido bem.

aquela coisa do destino, sabem?


21/03/2020

amor em tempos de pandemia (1)

manifesto — João Oliveira @ 19:07

“se sobrevivermos a isto, casamos”, disse-me ela ao ouvido, num sussurro que me percorreu espinha abaixo e me deixou de sorriso rasgado na cara.


23/01/2020

Estragado

manifesto — João Oliveira @ 19:07

Foi apenas aos 31 anos que soube o que era alguém terminar uma relação comigo. Cara a cara, em pessoa, com coragem, de forma mais ou menos humana. Até então foram relações atrás de relações que acabaram em traição ou votadas ao silêncio e ao abandono. Uma ou outra uma mensagem de despedida, impessoal e vazia de sentimento.

Quando finalmente aconteceu, em Novembro de 2018, demorei alguns dias a identificar aquilo que na altura não sabia o que era: um ligeiro ataque de pânico.

O coração a bater mais rápido, na expectativa, eu a debater-me para controlar a respiração e não hiperventilar, sem que deixasse transparecer o que estava a acontecer nas minhas entranhas. Sentia o coração na boca e fazia de tudo para escondê-lo.

Hoje é quinta-feira. Ela mal me fala desde ontem à noite e acabou de dizer-me que falamos no sábado, não sei se antes ou depois do concerto que combinámos ir ver. Rejeitou todas as tentativas de ir ter com ela e os sintomas de pânico regressaram, mas hoje aceito-os com um triste sorriso.

Não sei o que vai na cabeça dela, não quer falar comigo e diz-me que, hoje, não vale a pena ser teimoso. Ela pensa que não tenho como ir ter com ela, mas, hoje sim, vou ser obstinado e vou arranjar maneira, sem plano b, para o caso de a coisa correr mal. Sempre consegui no passado, não era hoje que ia desistir.

Nunca fui um bom namorado, já o escrevi aqui. A série de relações falhadas e a maneira como quase todas elas acabaram fizeram-me assim. Fechei-me sobre mim mesmo, habituei-me a estar sozinho, sem deixar entrar quase ninguém.

Ergui muros à minha volta para não voltar a ser magoado. Não se pode partir um coração já partido e remendado. Se não deixar ninguém entrar, ninguém pode sair, certo?

Até que ela apareceu na minha vida, fruto do acaso. Melhor do que tu procuras é em quem tu tropeças.

Eu não faço de propósito, mas deitar abaixo estas barreiras não é fácil e eu não sei se ela tem a força ou a vontade suficientes para as derrubar. Sabe Deus que quero que o faça. E hoje os sintomas de pânico regressaram.

Ainda não somos namorados, disse-lhe algures nas escadas do Lux durante a noite de fim de ano e ela ficou a olhar para mim, de ar intrigado.

Não somos namorados, mas é como se o fôssemos. Apaguei o Tinder, espero que finalmente de vez. As pessoas que lá encontrava eram desinteressantes e já só usava aquilo para passar o tempo quando estou aborrecido.

Um destes dias, ela perguntou-me que pessoa ela era para mim. Isto porque sempre que ela me pergunta sobre algo para que não tenho resposta, tenho sempre uma pessoa, amigos, pessoas que sigo, a quem perguntar, qualquer tema que seja o tema, da política à ciência, gramática ou cultura geral, seja através do Twitter, do WhatsApp ou do Instagram. Respondi-lhe, com a voz embargada, que ela era a pessoa para o resto da minha vida, mas não sem que tivéssemos dormido nessa noite separados, cada um num canto da cama, porque, detrás de uma das muralhas que ergui, já lho tinha dito antes e não queria voltar a sentir-me vulnerável da mesma maneira. Porquê? Não me perguntem, porque eu também não sei responder.

Estão a ver aquelas cenas dos filmes ou das séries em que o personagem principal olha para a família, ao longe, e sorri, porque se sente feliz e sortudo pela vida que construiu? Noutro dia imaginei-me num cenário idêntico e foi a ela que a vi, com dois putos a brincar de volta dela.

Merda, estou a ficar velho, estragado e cada vez mais lamechas.


19/09/2019

Capítulo último

manifesto, prosa — João Oliveira @ 23:39

Nessa noite, chegou a casa, cansado. Havia muito tempo que não saía assim do trabalho, completamente de rastos, a querer apenas estar horas no duche, a levar com a água quente no corpo dorido, enfiar-se debaixo dos lençóis e dormir até o despertador o acordar, sobressaltado, de manhã.

No momento em que ia a colocar a chave na fechadura, lembrou-se da discussão dessa manhã e o que o esperava do outro lado da porta. Respirou fundo, com a chave ainda suspensa no ar, rodou a fechadura e entrou, decidido a enfrentar a fúria da Sara.

Seguiram-se as habituais horas de discussão.

Portas a bater, murros na mesa, gritos de um lado para o outro, entre divisões diferentes da casa até.

Ficaram horas naquilo, até que, exaustos e emocionalmente esgotados, a casa caiu num silêncio gritante, o ar de cortar à faca. Cada um se arranjou para dormir, entraram, mudos, na cama, sem se despedir e desligaram as luzes, a escuridão como que a esconder os despojos de uma relação que há muito terminara.

Ele deixou-se ficar, deitado de costas, a fitar o tecto escuro que parecia devolver-lhe o olhar, enquanto ela dormia serenamente ao lado, como se a discussão dessa noite não tivesse acontecido, a enésima a juntar à lista.

Estava embrenhado nos pensamentos enquanto ia, aos poucos, apercebendo-se do quão miserável a sua vida se tinha tornado desde que decidira voltar para ela. Vivia numa ilusão, a maior da sua vida, totalmente deslumbrado pela ideia que tinha dela, sem conseguir ver para além da sua obsessão apaixonada. Tinha colocado a Sara num pedestal e recusava-se, inconscientemente, a deixá-la, ou fazê-la, cair daquele sítio divinizado que criara à medida dela.

Estes pensamentos foram assolando-o noite após noite, todos os dias da semana.

Acordava todas as manhãs exausto, pouco depois de ter conseguido silenciar as vozes que lhe gritavam para ir embora, fugir, ir viver, ser feliz. As mesmas vozes que o atormentavam e que tinha conseguido adormecer poucas horas antes, por breves momentos, os poucos instantes de sossego que tinha. Ao fim do dia regressava, ainda mais cansado, àquela rotina de discussões atrás de discussões em que aquela relação se tinha tornado.

Aos poucos, começava a ver o que ela realmente era e o quanto aquela relação exigia dele e o desgastava.

Ele nunca tinha sido mais do que um brinquedo nas mãos dela e ele conseguia agora perceber isso. Ele apenas servia para a sua satisfação, pouco mais, e ela tinha-o tornado fraco, fácil de manipular, ao sabor da sua vontade. Percebia agora o que os amigos tinham tentado, em vão, dizer-lhe.

Olhando em retrospectiva, percebeu que estava mais sozinho do que nunca.

Aqueles que sempre se tinham preocupado consigo foram os mesmos que tinha afastado, sem pensar duas vezes. O André, a Sofia, o João. Tudo por causa dela. Sempre sob o controlo dela. Ele não tinha sido mais do que um boneco nas suas mãos, um plano, um projecto. Ela apenas o tinha moldado à sua imagem, para fazer dele o que queria, a seu bel-prazer.

Chegou o dia em que decidiu que bastava. Não valia a pena permanecer mais numa relação de um só sentido. Levantou-se da cama, arrumou calmamente as suas coisas e saiu, sem deixar recado, destino ou direcção. Foi com esta música que saiu a cantarolar em passo decidido pela rua, noite fora. Com o bater da porta, saiu de casa para nunca mais voltar. Deixou-a para trás e foi ser feliz.


12/07/2019

Estrelas e constelações que já não vemos

manifesto — João Oliveira @ 04:11

Há momentos em que a ressaca bate com mais força do que aquela a que estás habituado e ficas sem saber ao certo se é por causa dos excessos da noite anterior ou apenas a dura realidade a recordar-te de que o teu coração continua irremediavelmente partido e sem ninguém para ajudar-te a recolher os cacos.

Achavas, ingénuo, que a última vez ia ser mesmo a última vez, mas foi apenas mais uma desilusão na já longa lista de desapontamentos que vais somando. Sonhos arruinados, esperanças despedaçadas, futuros apagados.

Costuma dizer-se que não se pode partir um coração partido, mas quantas vezes aguenta um coração ser partido? Não interessa, na verdade, porque um coração vai acabar sempre por ser partido, aconteça o que acontecer.

Acostumei-me a ver-te acordar a meu lado, o teu perfil desenhado pela luz difusa que entrava pela janela enquanto te preparavas para o dia que estavas prestes a enfrentar. Eu deixava-me estar, deitado a observar-te apenas, deliciado, questionando-me se tudo não seria ainda parte de um sonho de que acabara de acordar. Tu eventualmente reparavas e ficavas de repente sem jeito, a face a enrubescer e um sorriso a iluminar-te ainda mais a face.

Eram esses os momentos mais preciosos, aqueles em que sentia o tempo suspenso ao nosso redor e que me faziam questionar-me que raio teria eu feito nesta ou numa outra vida para que tu tivesses escolhido estar comigo.

Eram dias felizes. Frios, mas felizes.

Recordo as nossas caminhadas a dois por aquelas ruas escuras e frias desse Porto que não me canso de adorar, o calor da tua mão na minha a aquecer-me a alma e o coração. O teu sorriso a rasgar-te a face, de orelha a orelha, o olhar tão apaixonado com que me fitavas nos momentos em silêncio, um silêncio cúmplice e de quem não quer mais nada senão estar ali. Aquela vista magnífica sobre o Douro que tantas vezes me levaste a admirar – era das poucas coisas que te pedia sempre que te visitava – tinha o condão e a virtude de sossegar-me o espírito, a tua presença a tranquilizar-me o ser, como só tu conseguias fazer.

Eram poucas as noites bem dormidas, quando estava longe de ti. Passávamos horas noite dentro a conversar, a matar as saudades que a distância mais não fazia senão alimentar. Fazíamos planos a dois, os sítios onde queríamos ir, as cidades que queríamos visitar, as pessoas que queríamos conhecer.

Mas um dia deixaste de querer estar ali, onde também eu estava. Eu já sabia o que querias dizer-me quando fomos jantar naquele último dia, mas, ainda assim, despedaçaste-me o coração enquanto me dizias que já não querias estar comigo.

E, de repente, o quarto esfriou, assim que a porta bateu atrás de ti e tu descias as escadas e entravas no táxi que te levaria para longe, tão longe, fora do alcance. Retirei-me para dentro de mim mesmo, enquanto tu te retiravas da minha vida. Durante mais de um mês não lavei os lençóis onde te deitaste só para que a cama não perdesse o teu cheiro. 

Hoje sorrio sempre que vou à varanda que dá para as traseiras do prédio e onde passámos longas noites a observar as estrelas e constelações que te ensinei a ver, enquanto me dizias que não gostavas do Harry Potter. Aposto que hoje já as esqueceste.

Nunca gostei daqueles chavões que tantos partilham nas redes sociais, aquelas frases inspiracionais quase sempre vazias de significado, como aquela velhinha “não chores porque acabou, sorri porque aconteceu”, mas acho que, para ti, posso abrir uma excepção. Nem tudo dura para sempre, as pessoas não ficam para sempre. Há pessoas que entram nas nossas vidas, outras que saem e há também aquelas que expulsamos. Cada uma delas com algo para ensinar-nos, para fazer-nos crescer. Não, nem todas as pessoas ficam, mas deixam sempre algo delas dentro de nós. Tu foste, para o bem e para o mal e até ao fim, uma das melhores coisas que me aconteceu e isso eu nunca esquecerei.


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