Critica por favor o meu elevado ego

30/04/2020

daqui por vinte anos

ensaio — João Oliveira

daqui por vinte anos, quero estar a contar aos nossos filhos como foi o nosso primeiro encontro. a história toda: como me deste uma tampa da primeira vez que te convidei para sair, como te fazia rir com as minhas tiradas tão cheesy e tão pirosas ou como aquele concerto dos ornatos violeta, numa noite em que mercúrio tinha acabado de entrar em retrógrado, foi o ponto de partida para uma vida em conjunto.

como sobrevivemos juntos a esta crise existencial que se abateu sobre o mundo, sem pedir licença, e que acabou por acelerar a maneira como ficámos a conhecer-nos melhor, ficámos a saber o melhor e o pior de cada um, de como continuámos a apaixonar-nos ainda mais um pelo outro a cada dia que passou. de como amámos, lutámos e chorámos para mais tarde sairmos disto juntos, mais fortes.

daqui por vinte anos, quero amar-te ainda mais, cada vez mais, se for isso possível. quero olhar os nossos filhos e ver neles o teu reflexo, os putos mais giros do mundo. vou continuar a tentar conquistar-te todos os dias, como deve ser.

quero estar na nossa casa, um lar que construímos em conjunto, e receber os nossos amigos para serões animados e cheios de alegria. quero fazer como os heróis dos filmes e das séries de televisão e ter uma daquelas cenas em que ele olha para a família, ao longe, com uma pianada pirosa por baixo, ver-te com os putos a brincar de volta de ti e apenas sorrir, pela sorte que tive em ter construído tudo isto contigo. sabes que esses momentos que ainda não vivemos já me enchem o coração, hoje. imagina só o quão a abarrotar estará daqui por vinte anos.

daqui por vinte anos vou estar a pensar como raio foi que vinte anos passaram tão depressa? vou ficar a pensar e a questionar-me porque foi que demorámos tanto tempo a encontrar-nos. e vou ficar a pensar nos vinte anos seguintes. e nos outros. daqui por vinte anos, vou ter mais de cinquenta e tu uma quarentona e eu continuarei a ser o gajo com mais sorte à face da terra por te ter a meu lado.

teremos realizado já grande parte dos nossos sonhos, mas eu ter-me-ei há muito arrependido, por exemplo, de não ter feito contigo aquele vídeo para aquela cápsula do tempo que querias fazer.

daqui por vinte anos, quero continuar aqui, porque mais importante do que termos um futuro em conjunto é termos construído todo este passado que mal posso esperar por viver contigo.

:: santa maria da feira, 27 de abril de 2020

#seismeses

22/05/2013

horas rotineiras

ensaio,prosa — João Oliveira

no início puxavas por mim, no encanto que o desejo pela mútua descoberta despertava em nós. eu tentava compreender-te até ao mais ínfimo detalhe e tu querias saber se eu seria mesmo capaz de alguma vez desvendar todos os teus segredos.

eras tu o motivo por que acordava todos os dias de manhã, tal era a ânsia de passar o meu tempo contigo. fazias-me correr para ti e o tempo até poder estar novamente contigo passava tão devagar que o nervoso miudinho tomava conta de mim, como um agarrado a ressacar por mais uma dose.

mas o tempo passou e ao fim de dois meses há muito pouco em ti que me cativa e me mantém interessado. deixámos morrer a paixão que em mim despertavas e desde então nada mais foi o mesmo. já não há o desafio e torna-se penoso até estar no mesmo espaço contigo.

o dia caiu numa hora rotineira seguido de outra hora rotineira, num ciclo vicioso, até todas as horas rotineiras se tornarem numa coisa desinteressante, um marasmo e um vazio que nada parece conseguir preencher.

não quero pensar em deixar-te, porque sabes que eu não consigo viver sem ti. mas temos de arranjar maneira de ressuscitar o romance que uma vez me fez sentir mais vivo do que nunca.

04/11/2012

exercício (2)

ensaio,exercício,poesia — João Oliveira

a cidade está deserta
mas alguém apagou os sinais
que me levavam de volta a casa
para junto de ti, de mim, de nós
em todo o lado a tua ausência que me grita
ora violenta, ora demente
para me lembrar que tu não voltas
antes de chegar o fim de tudo

28/12/2011

velha glória

ensaio,poesia — João Oliveira

a minha velha glória
podia ser contada numa breve história
sem grandes dons de oratória
de paixão ambulatória
de dor expiatória
e dificuldade respiratória
que não foge à tua convocatória
tal a vontade inflamatória
de consequência insatisfatória
e sensualidade provocatória
desta experiência sensória
deixando de lado a vida acessória
autêntica linha divisória
de uma vida cheia de culpa recriminatória
e cumplicidade incriminatória
alucinação exploratória
de sensação aleatória
que termina sem queixa acusatória
despedida recompensatória
nem festa em conservatória
numa conclusão revogatória
de leitura pouco obrigatória
sem direito a audição interrogatória

15/12/2011

de forma clara

a tua ausência é ferida que não sara
tu não sabes e ninguém repara
que os meus olhos brilham e o meu coração dispara
e ilumina-se-me a cara
de forma clara
apesar da distância que nos separa
porque a tua presença rara
num sentimento que se aclara
é a única coisa que ainda me ampara

07/10/2011

ensaio sobre o ódio

apontamento,ensaio,exercício,prosa — João Oliveira

não consigo compreender essa tua necessidade de fazeres a cabeça a toda a gente que conheces contra mim apenas porque não consegues evitar destilar todo esse ódio despropositado que em ti desperto e que nunca soubeste ou quiseste explicar-me.

da mesma maneira que não entendo porque precisas de falar mal de mim só para bateres o couro a uma gaja em quem eu não estou sequer interessado.

nem tenho culpa de que a tua namorada apenas esteja contigo para poder estar perto de mim sempre que vamos beber uns copos.

finalmente, super-ego? isso é dizer pouco.

25/09/2011

ensaio sobre o orgulho

apontamento,ensaio,exercício,prosa — João Oliveira

o porquê é simples e todos quantos nos conhecem sabem-no: tu és demasiado orgulhosa para me dizeres que me queres ou pedires desculpa. e eu sou demasiado orgulhoso para te pedir que voltes para mim. no fundo fomos feitos um para o outro e sabemo-lo. não queremos dar parte fraca e por isso vamos passeando esta angústia mal disfarçada de procurarmos aquilo que já encontrámos.