Critica por favor o meu elevado ego

21/10/2015

Os olhos a sorrir (2)

prosa — João Oliveira @ 04:17

Respirou fundo, fechou os olhos e reteve o ar nos pulmões, como se travasse o fumo de um cigarro que só ele via, enquanto se preparava para lhe dizer tudo o que queria dizer. Deixou-se ficar assim por breves instantes, os pensamentos a correr, velozes, na cabeça à medida que tentava colocar alguma ordem neles.

“Já reparaste como os meus olhos brilham quando estou contigo?”, perguntou-lhe num sopro.

Ela olhou para ele, meio confusa, meio a sorrir.

“Eu não, mas já me disseram que sim…”, respondeu, meio envergonhada, a face a corar.

Ele não se deixou abalar e replicou simplesmente: “Tens de reparar na próxima vez que vier ter contigo”.

“Mas brilham porquê?”

Era esta a pergunta que ele mais receava. Voltou a respirar fundo, desta vez demorando mais tempo a soltar o ar, quase a deixar-se dominar pelo medo do que seria a reacção dela.

“Parece-me bastante óbvio que gosto de ti, Ana”.

Ainda nem tinha acabado de falar e já sentia as faces ruborizadas e as orelhas a aqueceram subitamente.

Ficou a olhar fixamente para o chão, sem saber o que fazer com as mãos, enquanto esperava que ela quebrasse aquele silêncio que o ensurdecia. O coração batia forte no peito, como que a querer romper a pele e entregar-se, prostrado e por inteiro, a ela.

Quando finalmente ganhou coragem de levantar o olhar, reparou, num arrepio que lhe percorreu o corpo todo, que ela continuava a sorrir, enquanto o sol que se punha naquele final de tarde reflectia nas madeixas loiras do seu cabelo e dava ainda mais brilho aos olhos dela.


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