Critica por favor o meu elevado ego

05/01/2015

Os olhos a sorrir (1)

prosa — João Oliveira @ 22:15

Estavam sentados há algum tempo sem dizer nada. Apenas a olhar nos olhos um do outro, a sorrir, a mão de um sobre a do outro. Cada um tinha um daqueles sorrisos meio tímidos, meio marotos, dos que querem dizer mais alguma coisa. Daqueles em que até os olhos se juntam à festa e brilham como se não houvesse amanhã.

Os dele queriam dizer-lhe que gostava dela.

De repente, ele rasgou o silêncio: “Estive a pensar… Sabes o que acho?” Ela estava meio absorta no sorriso dele e não reagiu logo. Abanou a cabeça, como se tivesse acordado de um sonho, e perguntou: “O quê?”

“Acho que tens medo”.

“Medo? Medo de quê?”

O sorriso dele abriu-se ainda mais, se tal era possível, ao dizer-lhe: “De gostar de mim”.

“De gostar de ti?”

Respirou fundo antes de prosseguir: “Não, de gostar de mim, não. Eu acho que tu já gostas de mim. Mas não queres — ou tens medo, lá está — de reconheceres sequer essa hipótese. Ou, se calhar, tens medo de saber que eu também gosto de ti”.

“Mas porque dizes isso?”

“Acho que é da maneira como olhas para mim”.

“E como é que eu olho para ti, diz-me lá?”, atirou-lhe ela, meio divertida, com um sorriso de orelha a orelha e os olhos também a brilhar.

E ele preparou-se para dizer-lhe tudo o que andava a guardar há meses.


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um comentário to “Os olhos a sorrir (1)”

  1. Os olhos a sorrir (2) Says:

    […] fechou os olhos e reteve o ar nos pulmões, como se travasse o fumo de um cigarro que só ele via, enquanto se preparava para lhe dizer tudo o que queria dizer. Deixou-se ficar assim por breves instantes, os pensamentos a correr, velozes, na cabeça à medida […]

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