Critica por favor o meu elevado ego

31/05/2014

O beijo

prosa — João Oliveira @ 01:31

Não estava à espera de a encontrar. No meio da multidão que se ia aglomerando na pequena praça, naquela noite quente de primavera, se tivessem querido combinar encontrar-se não teriam conseguido. Só podia ter sido o destino a cruzar os seus caminhos.

Trocaram umas breves palavras, ele virou a cara por uns instantes e, quando voltou, não a viu mais. O coração estremeceu-lhe o peito. Havia qualquer coisa nela que o cativava. Talvez fossem os seus olhos verdes, emoldurados pela pele de tez tão branca como a neve a contrastar com o cabelo tão negro como a noite.

Vislumbrou-a pelo meio da multidão e caminhou para ela, o passo apressado e o coração acelerado. Parou em frente dela, sorriu e ela deixou-se contagiar pelo sorriso dele. Sem uma palavra, aproximaram-se lentamente, como nos filmes, e beijaram-se.

Foi um beijo tímido e fugaz, que terminou demasiado depressa e o deixou a ansiar por mais. Mordeu o lábio assim que as suas bocas se separaram e ela se afastava lentamente.

Ficou parado no meio da multidão, um sorriso meio parvo a atravessar-lhe a cara, o olhar sonhador. Demorou até voltar à realidade e a perceber onde estava. Olhou em redor, à procura dela. Sem a ver, continuou a sorrir. Não havia nada que pudesse deitá-lo abaixo naquele momento.

Passou a sentir-se revigorado, como se tivesse renascido. Não conseguia deixar de pensar nela, ela era droga e ele tinha ficado viciado na primeira experiência. Sentia-se bem, capaz de qualquer coisa. De enfrentar o mundo até. Estava mais leve e despreocupado. Mais livre. Mais vivo.

Foram falando, ele só queria estar novamente com ela mas escondia o desejo para não a afastar. Ao fim de alguns dias, deixou de responder. Aos poucos, a sua indiferença foi matando o que dias antes tinha feito renascer dentro dele. Já tinha estado ali e estava determinado em não voltar àquele lugar sombrio. Não outra vez. Decidido, enviou-lhe uma última mensagem.

Não sei como descrever o quão gostei do nosso beijo, há muito tempo que ninguém me fazia sentir-me assim. Não estou a dizer-te que quero ficar contigo para sempre, casar e ter filhos contigo, mas achei sinceramente que podia haver aqui alguma coisa que pudesse dar qualquer coisa mais.

Mas eu não vou correr o risco de apaixonar-me por ti se tu não estás disposta a arriscar o mesmo.

Um beijo tinha conseguido deixá-lo pendurado, mas ele decidiu não perder o controlo. A queda foi dura, mas caiu de pé. E isso, mais do que qualquer paixão ardente do seu coração, é que era realmente importante.


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