Critica por favor o meu elevado ego

24/07/2015

Este é o meu dogma

prosa — Pedro Paixão @ 11:58

Este é o meu dogma

Ainda sinto arrepios quando recordo os dias e as noites fechados no quarto grande da casa escondida na floresta de Sintra. Vivíamos clandestinos, encobertos e subjugados pela tirania do prazer que nos afastava de tudo o que não fosse nós. Logo pela manhã passava uma rapariga que trazia um cesto grande cheio de laranjas em fogo. Era lindo ver passar a rapariga.

Lembro-me de nos alimentarmos três dias e três noites seguidas exclusivamente de papa Cerélac e pequenos morangos selvagens que todos os anos apareciam no mesmo canto do jardim. Lembro-me de não me conseguir levantar quando tentei, de cair de joelhos no chão.

Lembro-me de me levares ao colo para dentro de uma banheira de água tépida como se eu fosse um anjo enfraquecido a morrer de paixão, e tudo era verdade.

Poucas foram as horas da minha vida tão infatigáveis como aquelas em que, por debaixo dos lençóis, contávamos um ao outro histórias inventadas com o propósito de provocar mais uma vez, a última vez, o prazer que demorava cada vez mais em vir e longo a passar e quase doía como um estilete dentro do meu sexo. Uma vez e outra e ainda mais outra, por favor.

Eu não sabia que era possível, mas a partir daí acreditei que sim, que o prazer era uma graça oferecido pelos deuses, doce como vinho misturado com mel, e se Jesus foi o mais completo dos homens, só assim podendo ser divino, também amou as mulheres com o corpo sagrado e todos os corpos de mulheres o são. Porventura quem melhor as soube amar, o mais perfeito trabalho.

De que me serviria como exemplo de vida um homem divino mas virgem? Um homem que nunca conheceu por inteiro uma mulher nem pode ser santo nem homem completo pois que para o ser tem de passar pela experiência única e inesquecível de ter vivido com uma mulher.

Este é o meu dogma. Queres ouvir mais? Quando não, não te preocupes comigo. Em mim apenas estás o tempo que eu decidir.


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