Critica por favor o meu elevado ego

12/08/2014

A saudade

prosa — João Oliveira @ 08:22

A saudade

Nada de bom acontece depois das duas manhã. A velha máxima televisiva aplica-se à vida melhor do que poderia imaginar-se. Pouco passava das três da manhã e ele já tinha bebido mais do que a dose recomendava e já começava a pensar naquilo que não devia.

Às tantas, deu por si a tirar o telemóvel do bolso das calças de ganga roçada, escrever duas ou três palavras rápidas, digitar o número que há muito sabia de cor mas não devia e enviar a mensagem.

Tenho saudades tuas.

Encostado ao balcão do bar do costume, com mais um whisky cola na mão do que aquela noite em particular aconselharia, não ficou à espera de resposta. Não era por ela não lhe responder que ele deixava de dizer aquilo que sentia e pensava. Era mais uma espécie de confissão, um desabafo, um peso que lhe saía de cima. Mais do que dizer o que sente, ele diz o que precisa de dizer.

Não eram namorados, nem nunca tinham sido. Mas andaram perto disso. Ele tinha-a conhecido no trabalho e rapidamente se apaixonou por ela. Não tinha escolhido gostar dela — quem é que escolhe de quem gosta? —, foi quase uma fatalidade da vida e tinha a certeza de que ela também sentia alguma coisa por ele. Pelo meio, o namorado dela.

Foram passeando juntos ao fim da tarde, quase sempre de mão dada, e oportunidades para o primeiro beijo não faltaram. No entanto, ele não queria colocá-la numa posição em que fosse ela a ficar com o ónus da traição. Era demasiado cavalheiro e romântico para o fazer. Por isso, estava determinado em esperar que ela percebesse que os dois tinham sido feitos um para o outro e que estavam destinados a ficar juntos.

Ela hesitava em decidir-se e a espera acabou por desgastá-lo. Perdeu a esperança, pelo meio zangaram-se e a amizade morreu. Ela entretanto acabou o namoro, mas nada voltou a ser o mesmo. Por isso, as saudades atormentam-no diariamente e apoderam-se das suas noites. Assim que toca a meia-noite, é vê-lo a sair de casa e ir até ao bar do costume, encostar-se ao balcão e ficar a tentar afogar as mágoas e as saudades e tudo o mais que o faça lembrar dela.

É que a saudade não é um sentimento exclusivo do amor.

Por isso, a cada dia que passa, ele volta a jurar três vezes por cima do coração e passa os dedos cruzados três vezes sobre os lábios a prometer que não volta a ligar-lhe ou mandar mensagem. Apesar da saudade, o orgulho regressa com a alvorada da ressaca de cada noite.

Há muito tempo que deixou de estar apaixonado por ela. Aprendeu a viver sem ela. Mas há também a saudade do que não foi e poderia ter sido. Os planos que sonhara e que não chegaram a concretizar-se. Pode chamar-se a isso saudade? Se calhar não, mas dói tanto ou mais do que a própria saudade.

A saudade é, em si mesma, uma espécie de amor.

Se calhar, talvez por isso mesmo, não possa dizer com toda a propriedade que deixou de estar apaixonado por ela. Talvez ainda esteja.

Mas se a saudade mata, também dá para matar a saudade. E foi isso que fez. De cada vez que lhe disse que tinha saudades dela, não estava a tentar reanimar o romance que viveram à distância de um sentimento mal reconhecido. Queria apenas a amiga com quem tinha passado horas a fio, noite dentro, à conversa sobre tudo e nada, numa troca de disparates que a fazia sorrir e o faziam sentir-se bem porque a fazia rir.

O orgulho é a forma mais eficaz de matar a saudade. É o salve-se quem puder, numa corrida em que mais vale matar do que ser morto.


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um comentário to “A saudade”

  1. Bárbara Says:

    belo texto, agora vem a calhar que tambem sinto saudades. E voce veja bem minha dificuldade, sou leonina e portanto orgulho é meu segundo nome. =s

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