Critica por favor o meu elevado ego

19/07/2015

A Alice não mora aqui

prosa — Pedro Paixão @ 19:15

A Alice não mora aqui

Sinto-me perdida não por ter perdido uma direcção ou um rumo, mas por ter descoberto que nunca tive uma direcção ou um rumo, nem acredito que isso me venha alguma vez a suceder. Vou escapando por entre sentimentos contraditórios, paradoxos mais ou menos perturbantes, ousadias e arrependimentos. Eu não tenho solução. Nem a procuro: a lucidez que me resta, e prezo mais do que tudo em mim, diz-me que só julga ter solução quem vai enganado e convencido do contrário. Vou ter de continuar assim, resolvendo o que depois por si se complica e tem de novo de ser resolvido. Como o tecido da Penélope. Só que eu não espero marido, nem salvação. Sei que há muito de falso na vida que levo. Dessa parte a responsável sou eu sozinha. Da outra parte não. Há gente que vive na nossa vida e não devia. Também julgo assiduamente que estou a ser dramática e a encher-me de pena de mim. Que não me devo queixar de nada, face ao ambiente e cenário geral da explosiva população demográfica vezes o incontrolável clima do planeta. O que eu sou é uma preguiçosa que se lamenta da vida quando o que devia era mudar dela. Não sei. Nem sei quem saiba, para lhe pedir ajuda. Os outros encontrarem-se numa situação próxima da minha serve-me por vezes de conforto mas a maior parte das vezes acresce à minha angustia habitual. É que as pessoas não gostam de falar destas coisas por que encontram dificuldades e ninguém aprecia expor as suas misérias. Enfim, ninguém gosta de falar das suas misérias sem uma recompensa sólida. Tipo alguém que nos compreenda melhor do que nós próprios nos compreendemos, o que parece ligeiramente contraditório e não é. Eu gosto tanto do contraditório que não me vejo a viver sem ele. Houve um grego que escreveu que tudo era contraditório, que tudo estava em constante guerra consigo e com os outros, que tudo acabava por passar, nunca nada ao mesmo tempo no mesmo lugar. Não tenho bem a certeza e não vou verificar.

Só não sinto orgulho em mim porque sou demasiado fraca para o sentir. Orgulho-me de não ceder às coisas pequeninas que impedem as maiores de acontecer, falar, bem ou mal, da vida das outras pessoas, roubar namorados que não prestam para nada senão não tinham deixado a namorada, visitar a minha avó uma vez por mês embora ela não me reconheça há mais de dois anos, e, mais do que tudo, ser fiel e verdadeira com os meus amigos, os quais graças à fidelidade e à verdade partilhadas se aproximam rapidamente do número 0.

A minha maior fraqueza reside em me deixar arrastar pelas coisas, o que julgo muito preferível a ser eu a arrastá-las atrás de mim. É uma fraqueza que valorizo. Não gosto de mandar em nada. Nem em mim. Por isso quando algo verdadeiramente acontece, o que é raro acontecer, deixo-me levar completamente, suspendendo o pouco livre arbítrio que me resta. Como poderei eu resistir a uma promessa de prazer? Com que justificação? Com que direito? Não tenho mão no meu destino, não conheço de antemão que rumo tomar, e, sobretudo, não tenho vontade de nada disso. Do que eu tenho vontade é do que ficou prometido, do que vem por fazer.

Podem-me raptar sem explicações ou desculpas. Nasci para ser raptada. Eu amo o meu raptor ainda antes de o ter visto pela primeira vez. Quero que ele me agarre o corpo e me sussurre ao ouvido: a partir de agora deixas de ser tua para seres só minha. Maravilha de descansar o coração noutro maior. Maravilha de não ter de falar mais uma palavra sequer. Sim, ser uma silenciosa escrava, uma escrava do meu prazer. Sou uma planta que se ergue quando há sol e chuva, para poder murchar no dia seguinte. Sou também um estranho ser que vive da noite e dos seus segredos. Os segredos da noite são em tudo diferentes dos segredos do dia. Quando dormimos somos todos iguais. Quando estamos acordados somos todos diferentes. Será que é a pensar nestas coisas excêntricas que se diz já se ser velho quando se ainda é novo, enfim, ir morrendo ainda em vida? Julgo que não. Pergunto-me se será do tempo que faz e não chove, se é um momento de lucidez ou de uma birra, se é o resultado do meu professor de literatura inglesa continuar cego para o meu desejo. Não sei. Nem quero saber. Só o que surpreende promete valer a pena. O previsível está mais do que visto.

Também penso que estou assim por não estar a ler nenhum livro. Sou o tipo de pessoa que vive através das personagens dos livros. O que deve fazer de mim uma pessoa alienada. Eu não sou o tipo de pessoa de viver a vida. De aproveitar as coisas. O que costuma atrair as pessoas afasta-me a mim. Gosto de estar em casa com os amigos, fazer jantares, jogar às cartas, conversar sobre os nossos filósofos favoritos. Mas chateia-me a limpeza da casa e não vou convidar pessoas com tudo desarrumado e sujo. Assim sendo não convido ninguém.

É que nem pintar tenho feito. Meti as coisas de pintura na casa da minha mãe, e depois aborrece-me lá ir. Pergunto-me, mas afinal que vou pintar eu? E pronto. Fica tudo igual. Estamos sempre a dar uma imagem errada de nós mesmos. Tudo menos de propósito. Nada a fazer. Se mesmo com aquele que amamos são tantos os espelhos, as imagens, os filtros entre nós que mal nos conseguimos ver e só às vezes. Como é que eu estou, isso gostava eu de saber. Ao fim e ao cabo sabemos menos de nós do que dos outros. Os outros não variam muito no que vão sendo. Mantêm uma altura de corpo, uma forma de ter o nariz, uma maneira de fazer com uma mão um gesto. Persistem num estilo de sapatos, num corte de cabelo, passam de um problema para outro idêntico. Quando me vou encontrar com a Alice sei muito bem com quem me vou encontrar. Quando volto a casa sozinha e me apanho diante de um espelho o caso é outro e perturbante. Nunca sou eu por inteiro, mas sempre um inquieto aspecto de mim. O que fui vai sendo diluído no que vou sendo. Sou sempre uma que vê a outra a fazer, que pensa a outra a pensar. Sem nunca estar por completo onde estou, mas numa passagem daqui para ali. Sim, conheço melhor os outros do que me conheço a mim. O que não quer dizer que seja muito. Por vezes é demais: eu já conheço o que a Alice pensa da minha relação platónica com o meu professor de Literatura Inglesa, antes dela voltar a repeti-la. Não sei bem o que é uma relação platónica. Deve ser uma coisa calma, com visitas de estudo a museus, longas cartas com uma bela caligrafia em tinta preta, telefonemas de horas e horas, e nada, mas nada, de beijos. Apesar de se dizer que os beijos fortalecem o sistema imunitário. Devo ter um sistema imunitário, embora nada tenha a ver com isso, e não me parece adequado dizer ao meu professor: professor, pode-me beijar quando quiser, por causa da sua saúde e da minha.


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