Critica por favor o meu elevado ego

01/07/2020

sacana (2)

manifesto — João Oliveira @ 00:01

a minha mãe contou-me, há uns anos, que o meu avô tinha guardado alguma mágoa por eu nunca ter escolhido o apelido dele para o meu nome profissional na carteira de jornalista. escolhi os meus dois nomes próprios e o apelido do meu pai, mas a verdade é que poderia ter escolhido o meu primeiro nome e os apelidos da minha mãe e do meu pai. na altura não me lembrei disso, não pensei nisso, mas andei estes anos todos a remoer e a matutar no assunto.

o meu avô era uma pessoa bestial, cheio das convicções dele e teimoso até mais não. tenho muito a quem sair no que à teimosia diz respeito. uma altura houve, quando me mudei para lisboa, em que foi como um pai para mim, quando o meu não soube ou não pôde sê-lo. ligava-me a avisar-me de que me tinha transferido algum dinheiro, que eu muito agradecia, e a querer saber de mim, de como estavam a correr os primeiros meses no trabalho novo e para saber das “gajas”, que imaginava abundarem na minha vida. respondia-lhe sempre que estava tudo a correr bem e que não podia queixar-me. respondia-me sempre com um “sacana!”, entre risos, e eu ria-me também.

era um homem independente e desprendido, trabalhou no escritório dele até quando quis, fazia o que tinha de fazer, sem depender de ou dever nada a ninguém. adorava a minha avó, a ‘zita dele, diminutivo de coisita, como se tratavam, com quem estava casado há mais de cinquenta anos e a quem nunca deixou que alguma vez faltasse alguma coisa. viajavam muito, o meu avô foi sempre onde quis ir, foram para todo o lado juntos, em portugal e no estrangeiro, mas nunca abdicaram daquele mês de férias em setembro na quarteira que tanto adoram. nos últimos anos, fazia-lhes sempre companhia durante duas semanas, quando o trabalho começou a impossibilitar que gozasse férias em agosto.

sempre quis estar actualizado e, felizmente, sempre pensámos mais ou menos da mesma maneira, com uma certa inclinação para a direita. passávamos horas a fio a discutir e a falar do estado e do rumo do país, as escolhas erradas dos vários governos e o que poderia ser feito para inverter o estado em que continuamos.

usava facebook e whatsapp e queria ter as aplicações de notícias instaladas, para estar a sempre a par do que se passava no mundo. apesar dos seus oitenta e poucos anos, tinha um smartphone, com ecrã táctil e tudo, mas fazia muitos disparates com ele e acabava por ser eu o “suporte técnico” sempre que ia visitá-lo ou quando me ligava a dizer que tinham aparecido umas notificações estranhas. por vezes, deixava-se ficar parado no meio da rua, muito compenetrado, a tentar fazer alguma coisa no telemóvel.

fiquei com o carro dele. teimoso como era, e já consciente de que não durava cá muito mais tempo, não descansou enquanto não lhe deu destino. era exactamente o modelo que eu sempre sonhara ter e que sempre disse que seria o primeiro carro que eu compraria.

durante algum tempo deixei-o ficar exactamente como estava, incluindo a almofada no banco do pendura, que a minha avó usava para viajar mais confortável e conseguir sair do carro com maior facilidade. a joana também lhe achou utilidade. o carro continua com aquele cheiro a novo, tantos anos depois, e, de vez em quando, bate a saudade quando entro no carro e sinto aquele cheiro que sempre associei ao carro dos meus avós. deixo-me ficar uns momentos, sentado ao volante, enquanto sorrio, respiro fundo e seco a lágrima no canto do olho.

dias há em que, quando vou passear com a joana, descubro uma coisa nova no carro e dou por mim a pegar no telemóvel para ligar-lhe a falar sobre o carro e dizer-lhe como é uma máquina bestial. detenho-me quando me lembro de que ele já cá não está e da falta que me faz falar com ele.

regressando ao início, que o texto já vai longo e as lágrimas há muito que me toldam os olhos, da última vez que o vi, depois de fazer a viagem entre tomar e lisboa e o regresso, para fazer uns exames que, a princípio, não queria fazer, mas a que, mais tarde, acabou por aceder, despedi-me dele, de coração apertado por não saber quando voltaria a vê-lo, mas não sem antes lhe dizer que eu e a joana já andávamos a falar em casar e ter filhos e que tínhamos concordado em chamar ao nosso primeiro filho lourenço, por causa dele, e que ele ainda haveria de cá estar para brincar com ele. sorriu e disse que não era preciso, à maneira dele, mas sei que, por dentro, ficou de coração cheio.

duas semanas depois acabou por morrer, teimoso, sem fazer o exame que não queria mesmo fazer, e eu não voltei mais a vê-lo.

o meu avô morreu
e o sacana agora sou eu
.

um comentário to “sacana (2)”

  1. um ano sem o sacana | Critica por favor o meu elevado ego escreveu:

    […] não tenho grande memória do dia um de junho de dois mil e vinte. não porque foi um dia mal fadado, porque foi, mas porque não me lembro de muito do que aconteceu.o meu avô estava internado no curry cabral há uns dias, a esperar a transferência para o são josé, para realizar um exame que teimosamente não queria fazer e só aceitou fazer depois de dias a pedir-lhe que fosse fazer.não sei bem que horas eram quando a minha mãe me ligou a pedir que fosse ao hospital, porque a médica lhe tinha ligado a pedir que a família lá fosse. pouco depois voltou a ligar a dizer que devia ser algo de grave, porque, pela voz da médica, parecia ser algo grave.sei apenas que eram quatro e seis da tarde quando cheguei ao hospital porque é essa a hora que está impressa no ticket. mal sabia que, a essa hora, já o meu avô não estava entre nós.não sei quanto tempo demorou até ser chamado pela médica. sentei-me, com a distância necessária entre mim e a secretária da médica, e a única coisa que me lembro dessa conversa são as seguintes palavras:joão, lamentou dizer-lhe que o seu avô faleceu esta manhã. estava a caminho do hospital são josé para fazer o exame quando … os médicos ainda tentaram reanimá-lo, mas sem sucesso.estive com o seu avô ontem, estava sentado na sua poltrona, reconheceu-me e estava em paz.não me lembro de mais nada. aquelas reticências ali no meio não são engano. são mesmo falhas, brancas, pedaços da conversa que o meu cérebro não registou.não sei quanto tempo estive à conversa com a médica. no histórico de mensagens que a joana me mandou, enquanto esperava por mim, ao fim de meia-hora ainda lá estava dentro.lembro-me apenas que entrei em choque quando soube da novidade. limitei-me a absorver a informação, sem conseguir processá-la. não chorei, não consegui chorar, porque não estava a compreender bem aquilo que a médica estava a dizer-me.quando finalmente cheguei cá fora, não sei quanto tempo volvido, a joana veio na minha direcção e, no seu abraço, finalmente chorei.fui num instante buscar os pertences do meu avô. seguimos viagem em direcção à comporta, a joana a levar o carro, para ir buscar o meu irmão e trazê-lo para casa da minha avó.chegámos ao final da noite, acho que já era perto da meia-noite. tínhamos passado a tarde toda em viagem.a primeira coisa que fiz foi abraçar a minha avó e senti-la a desfazer-se nos meus braços, a chorar. fomos nós que tínhamos levado o meu avô, o meu sacana, a fazer a viagem entre tomar e lisboa e tomar outra vez para ele fazer os exames que tão casmurramente não queria fazer.cheguei a tempo de murmurar à minha tia, minha companheira de tinto nos jantares de natal, um triste “parabéns”, porque ela fazia anos nesse dia um de junho. o dia de aniversário dela nunca mais vai ser o mesmo.e deu também para desejar parabéns à joana, depois da meia-noite, já no dia dois. foram uns parabéns tristes e desapontados, porque não era, certamente, aquilo que ela desejaria nem era de todo aquilo que eu tinha imaginado para aquele dia. ela que me segurou nesse dia e nos seguintes, não deixou que eu fosse engolido pelo chão que desapareceu de debaixo de mim, para nunca mais voltar.foi há um ano que o meu avô morreu e o sacana continuo a ser eu. […]

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