Critica por favor o meu elevado ego

19/06/2017

pedrógão grande

manifesto — João Oliveira @ 16:39

foi um fim-de-semana difícil, mas estou de coração cheio. sábado fomos todos dormir perplexos com os 19 mortos que se conheciam do incêndio em pedrógão grande. durante a noite os números foram sendo actualizados e o nosso horror foi crescendo: primeiro 25, depois 34, 47 e finalmente 62. como é possível que tenham morrido 62 pessoas num incêndio em portugal em 2017? não vou fazer essa reflexão, não é o momento, nem eu sou a pessoa indicada para fazê-la.

no domingo, depois de ver vários amigos a perguntar nas redes sociais o que podiam fazer para ajudar os bombeiros, principalmente quem estava no estrangeiro, como é o caso da ana sereijo, entrei em contacto com a autoridade nacional da protecção civil para perguntar isso mesmo: o que podem as pessoas fazer nesta altura? foi com algum espanto que me disseram, do outro lado da linha, que a protecção civil não tinha informação para dar.

não era, de todo, a resposta de que estava à espera. se a protecção civil não sabe quais são as necessidades dos bombeiros (não de cada quartel ou corporação especificamente, mas no geral), quem saberá? um dia entrarei nesta questão mais a fundo.

decidi, pois, fazer uso dos contactos que tenho nos escuteiros. liguei ao joão monteiro a pedir o número do nuno mendes, de condeixa, para saber se tinha o contacto de alguém dos bombeiros de condeixa. deu-me o número do tiago picão, que me encaminhou para o mário malo, sub-chefe dos bombeiros voluntários de condeixa-a-nova. o mário explicou-me quais as necessidades dos bombeiros na linha da frente no combate às chamas e pediu-me, enquanto membro da comunicação social, para sensibilizar as pessoas para se manterem afastadas dos teatros das operações. este bombeiro, que esteve no combate ao incêndio de pedrógão grande (provavelmente lá estará, enquanto escrevo estas linhas, outra vez), deu-me o seu testemunho: teve de transportar um companheiro que ficou ferido quando embateu com o carro dos bombeiros contra um veículo ligeiro que tinha ido ver o incêndio mais de perto.

comecei a partilhar o artigo, a tentar que as pessoas que queriam ajudar soubessem como fazê-lo e comecei a recolher toda a informação possível sobre isso e a partilhá-la tanto aqui, no facebook, como no twitter.

o antonio pinto veio falar comigo, em privado, sobre o que podia fazer para ajudar os bombeiros. queria fazer algo mais do que estar em casa a ver, nas notícias, o número de mortos a subir. perguntou-me se era para levar a comida e a roupa para condeixa, se era lá que estava concentrado alguma espécie de quartel-general de ajuda para pedrógão grande. expliquei-lhe que devia entregar no quartel mais próximo, que, à falta de um em priscos, seria braga. foi então que fez o apelo no facebook que deu origem ao artigo que aqui partilho.

o que o antonio pinto fez encheu-me o coração e dizer-lhe obrigado não chega, não chegará nunca, para lhe mostrar o quão orgulhoso e grato estou por aquilo que ele fez. tomara que muitos de nós pudessem fazer o mesmo. a história que se pode ler no artigo anexo é a da viagem que ele fez de braga a pedrógão grande e de volta a braga. deu-me imenso gozo escrevê-la por saber que pode ajudar a inspirar mais pessoas a fazer, se não o mesmo, o que puderem para ajudar quem mais precisa neste momento de aflição. como o antonio disse, “o povo português, junto, é mais forte do que o mundo inteiro!” é mesmo.

ao final da tarde, enquanto o antonio viajava para pedrógão grande, eu fazia a viagem em sentido contrário. cheguei a coimbra por volta da hora de jantar e fui, assim que pude, deixar a minha contribuição nos bombeiros sapadores de coimbra. fiquei com os olhos marejados quando vi a quantidade de água, leite, comida, soro fisiológico, roupa e tudo o mais que já tinha sido recolhida e isso encheu-me ainda mais, se tal fosse possível, o coração.

a isabel lourenço perguntou-me se queria ficar lá a ajudar a receber e separar os donativos que foram chegando tarde e noite dentro. claro que sim. a vontade de ajudar era tanta que seria impossível não ficar impressionado. perdi a noção do tempo, estava há horas a pé, sem almoçar, sem jantar, a suar em bica porque, por estes dias, não há maneira de o calor amainar, mas isso só me dava ainda mais força para continuar a servir, como tantas vezes fiz no passado.

a meio da noite, o comandante do quartel pediu para não apelarmos às pessoas, via redes sociais, para virem ajudar a separar os mantimentos e a roupa. tudo isso era bem-vindo, mas já havia demasiada gente a ajudar naquele espaço que se tornou pequeno para a generosidade das gentes de coimbra. que orgulho.

no final da noite, demos as mãos, numa espécie de círculo, e, por sugestão de alguém ali presente, enviámos boas vibrações para todos quantos combatiam as chamas e ajudavam as vítimas dos incêndios. soube, mais tarde, que também lá tinha estado a ajudar a recolher mantimentos um rapaz que tinha perdido tudo nas chamas de pedrógão grande. não consegui apanhá-lo, mas gostava de ter ouvido a sua história.

não sei quantas pessoas recebi naquele quartel. vi o nuno teodósio oliveira tentar perceber o que poderia dar para ajudar as pessoas e senti que, sem desdenhar o pedro dias roxo, é o homem que gostaria de ver à frente da associação académica de coimbra / oaf. não sei quantos litros de água ou leite me passaram pelas mãos, nem quantos quilos de comida ajudei a separar. sei que nessa noite dormi melhor. pode ter sido por estar derreado, física e emocionalmente, por tudo o que foi esse domingo; pode ter sido pelo sentimento de dever cumprido; porque sabia que parte dos mantimentos que tinha recebido e ajudado a separar estava a caminho de quem precisava, fossem os bombeiros e população de pedrógão grande, fossem os soldados da paz que combatiam incêndios um pouco por todo o distrito de coimbra, em góis, penela ou pampilhosa da serra; ou porque a temperatura em coimbra, nessa noite, foi bem mais baixa do que a de lisboa nos últimos dias… não sei. sei que dormi como não dormia há muito tempo.

hoje, logo de manhãzinha, lá estavam os bombeiros a carregar um camião com mais mantimentos, novamente ajudados por cidadãos de coimbra que deram o seu tempo para ajudar os que mais precisam. isto fez-me ter um pouco mais de fé na humanidade. bem que precisamos dela, nos tempos que correm.

isto são apenas palavras; muitos, se calhar, não vão chegar a estas linhas, depois deste testamento que aqui deixo. mas, é como tinha dito lá atrás: se servir para inspirar outros a sair da sua zona de conforto e a ajudar os que precisam, uma pessoa que seja, isso chega-me.

aos bombeiros que estão na linha da frente no combate contra as chamas e que, muitas vezes, são recebidos com ingratidão e insultos pelas populações no desespero de verem os seus pertences a arder, mais não posso fazer do que dar-vos o meu muito obrigado, do fundo do coração, e fazer tudo o que esteja ao meu alcance para tornar o vosso trabalho mais fácil.

é o que tenho feito e vou continuar a fazer.

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