Critica por favor o meu elevado ego

09/01/2021

hello darkness, my old friend

manifesto — João Oliveira

não durmo há mais de três dias. dói-me o corpo, a suplicar-me por descanso, e luto contra a exaustão com as poucas armas que o café e alguns estupefacientes me dão, porque aguentar estoicamente acordado, com os olhos a arder e o corpo a latejar, é o que me mantém longe dos pesadelos que me aterrorizam as noites. não quero voltar a adormecer.

onde é que nos refugiamos quando o sono não nos deixa descansar?

nas poucas ocasiões em que ouso sucumbir ao cansaço, sou invadido por episódios do passado, planos  e sonhos furados ou apenas cenas surreais, ou surrealistas?, partidas que a minha mente se diverte a pregar-me, como se a dura realidade não fosse suficiente para deixar-me à beira do precipício.

noites há em que acordo, sem saber bem que horas são, demoro a reconhecer o espaço que me rodeia e não sei onde estou. outras há em que acordo de um pesadelo, que posso já ter sonhado ou não, completamente em pânico, a gritar no vazio e banhado por suores frios, sem conseguir respirar e a precisar de um cigarro.

tenho ataques de pânico, de choro e de ansiedade durante o dia, que não escolhem hora, local ou situação. dias há que são um blackout completo. não me lembro do que fiz, não dou pelas horas a passar, de repente é novamente noite e o terror está de regresso. esqueço-me de coisas, não me lembro de palavras, começo a perder a memória.

deambulo pela casa, sem qualquer rumo ou propósito definido. deixo-me cair pelos cantos, sem saber o que fazer. estou vão, vazio, oco, sem energia para nada. para quê, também?

perdi peso e voltei a valores de quando tinha vinte anos. sei lá eu há quantos anos tive eu vinte anos. dias há em que não como. porque não tenho vontade ou porque simplesmente me esqueço de o fazer. o que ajuda a explicar porque voltei ao peso dos meus vintes.

isto é a depressão a instalar-se. sim, auto-diagnosticada, porque já a conheço há anos suficientes para saber reconhecê-la quando chega.

hello darkness, my old friend.

se notarem a minha ausência por aí, se estivermos no mesmo espaço mas sentirem que não estou lá é porque não estou mesmo. o meu coração voou para bem longe daqui e não tem como regressar.

apago ocasionalmente perfis nas redes sociais, mas volto a espaços, quando as saudades apertam. não tenho cabeça nem paciência para esse desfile de egos que, na melhor das hipóteses, é tudo farsa e, na pior das hipóteses, é mesmo a vossa vida. perdi o interesse em tudo. nada me move, nada me entusiasma, nada me faz querer ser ou sair daqui.

não me perguntem como estou, porque vou responder o habitual, que não é um “está tudo bem”, porque nunca nada está verdadeiramente bem, e também não vão reconhecer os sinais de que não está mesmo tudo bem e continuam alegremente com a vossa vida.

não me perguntem como estou, porque mais não servirá do que lembrar-me de tudo o que está mal e que não é pouco.

não me perguntem como estou para nunca mais se lembrarem de o fazer quando eu não vos responder. não é má educação, não é desprezo, é falta de vontade de viver. de tudo.

mas venham conversar comigo. conversar a sério. falem-me do vosso dia, das vossas preocupações e alegrias diárias. dos vossos planos para o futuro, das vossas angústias. tudo o que servir para me distrair desta tristeza imensa e profunda em que mergulhei e de que tão cedo não sairei.

conhecendo-me como me conheço, isto é um roadmap, o “novo normal”, para os próximos meses e anos. hello darkness, my old friend.

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