Critica por favor o meu elevado ego

12/07/2019

Estrelas e constelações que já não vemos

manifesto — João Oliveira @ 04:11

Há momentos em que a ressaca bate com mais força do que aquela a que estás habituado e ficas sem saber ao certo se é por causa dos excessos da noite anterior ou apenas a dura realidade a recordar-te de que o teu coração continua irremediavelmente partido e sem ninguém para ajudar-te a recolher os cacos.

Achavas, ingénuo, que a última vez ia ser mesmo a última vez, mas foi apenas mais uma desilusão na já longa lista de desapontamentos que vais somando. Sonhos arruinados, esperanças despedaçadas, futuros apagados.

Costuma dizer-se que não se pode partir um coração partido, mas quantas vezes aguenta um coração ser partido? Não interessa, na verdade, porque um coração vai acabar sempre por ser partido, aconteça o que acontecer.

Acostumei-me a ver-te acordar a meu lado, o teu perfil desenhado pela luz difusa que entrava pela janela enquanto te preparavas para o dia que estavas prestes a enfrentar. Eu deixava-me estar, deitado a observar-te apenas, deliciado, questionando-me se tudo não seria ainda parte de um sonho de que acabara de acordar. Tu eventualmente reparavas e ficavas de repente sem jeito, a face a enrubescer e um sorriso a iluminar-te ainda mais a face.

Eram esses os momentos mais preciosos, aqueles em que sentia o tempo suspenso ao nosso redor e que me faziam questionar-me que raio teria eu feito nesta ou numa outra vida para que tu tivesses escolhido estar comigo.

Eram dias felizes. Frios, mas felizes.

Recordo as nossas caminhadas a dois por aquelas ruas escuras e frias desse Porto que não me canso de adorar, o calor da tua mão na minha a aquecer-me a alma e o coração. O teu sorriso a rasgar-te a face, de orelha a orelha, o olhar tão apaixonado com que me fitavas nos momentos em silêncio, um silêncio cúmplice e de quem não quer mais nada senão estar ali. Aquela vista magnífica sobre o Douro que tantas vezes me levaste a admirar – era das poucas coisas que te pedia sempre que te visitava – tinha o condão e a virtude de sossegar-me o espírito, a tua presença a tranquilizar-me o ser, como só tu conseguias fazer.

Eram poucas as noites bem dormidas, quando estava longe de ti. Passávamos horas noite dentro a conversar, a matar as saudades que a distância mais não fazia senão alimentar. Fazíamos planos a dois, os sítios onde queríamos ir, as cidades que queríamos visitar, as pessoas que queríamos conhecer.

Mas um dia deixaste de querer estar ali, onde também eu estava. Eu já sabia o que querias dizer-me quando fomos jantar naquele último dia, mas, ainda assim, despedaçaste-me o coração enquanto me dizias que já não querias estar comigo.

E, de repente, o quarto esfriou, assim que a porta bateu atrás de ti e tu descias as escadas e entravas no táxi que te levaria para longe, tão longe, fora do alcance. Retirei-me para dentro de mim mesmo, enquanto tu te retiravas da minha vida. Durante mais de um mês não lavei os lençóis onde te deitaste só para que a cama não perdesse o teu cheiro. 

Hoje sorrio sempre que vou à varanda que dá para as traseiras do prédio e onde passámos longas noites a observar as estrelas e constelações que te ensinei a ver, enquanto me dizias que não gostavas do Harry Potter. Aposto que hoje já as esqueceste.

Nunca gostei daqueles chavões que tantos partilham nas redes sociais, aquelas frases inspiracionais quase sempre vazias de significado, como aquela velhinha “não chores porque acabou, sorri porque aconteceu”, mas acho que, para ti, posso abrir uma excepção. Nem tudo dura para sempre, as pessoas não ficam para sempre. Há pessoas que entram nas nossas vidas, outras que saem e há também aquelas que expulsamos. Cada uma delas com algo para ensinar-nos, para fazer-nos crescer. Não, nem todas as pessoas ficam, mas deixam sempre algo delas dentro de nós. Tu foste, para o bem e para o mal e até ao fim, uma das melhores coisas que me aconteceu e isso eu nunca esquecerei.


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