Critica por favor o meu elevado ego

23/01/2020

Estragado

manifesto — João Oliveira @ 19:07

Foi apenas aos 31 anos que soube o que era alguém terminar uma relação comigo. Cara a cara, em pessoa, com coragem, de forma mais ou menos humana. Até então foram relações atrás de relações que acabaram em traição ou votadas ao silêncio e ao abandono. Uma ou outra uma mensagem de despedida, impessoal e vazia de sentimento.

Quando finalmente aconteceu, em Novembro de 2018, demorei alguns dias a identificar aquilo que na altura não sabia o que era: um ligeiro ataque de pânico.

O coração a bater mais rápido, na expectativa, eu a debater-me para controlar a respiração e não hiperventilar, sem que deixasse transparecer o que estava a acontecer nas minhas entranhas. Sentia o coração na boca e fazia de tudo para escondê-lo.

Hoje é quinta-feira. Ela mal me fala desde ontem à noite e acabou de dizer-me que falamos no sábado, não sei se antes ou depois do concerto que combinámos ir ver. Rejeitou todas as tentativas de ir ter com ela e os sintomas de pânico regressaram, mas hoje aceito-os com um triste sorriso.

Não sei o que vai na cabeça dela, não quer falar comigo e diz-me que, hoje, não vale a pena ser teimoso. Ela pensa que não tenho como ir ter com ela, mas, hoje sim, vou ser obstinado e vou arranjar maneira, sem plano b, para o caso de a coisa correr mal. Sempre consegui no passado, não era hoje que ia desistir.

Nunca fui um bom namorado, já o escrevi aqui. A série de relações falhadas e a maneira como quase todas elas acabaram fizeram-me assim. Fechei-me sobre mim mesmo, habituei-me a estar sozinho, sem deixar entrar quase ninguém.

Ergui muros à minha volta para não voltar a ser magoado. Não se pode partir um coração já partido e remendado. Se não deixar ninguém entrar, ninguém pode sair, certo?

Até que ela apareceu na minha vida, fruto do acaso. Melhor do que tu procuras é em quem tu tropeças.

Eu não faço de propósito, mas deitar abaixo estas barreiras não é fácil e eu não sei se ela tem a força ou a vontade suficientes para as derrubar. Sabe Deus que quero que o faça. E hoje os sintomas de pânico regressaram.

Ainda não somos namorados, disse-lhe algures nas escadas do Lux durante a noite de fim de ano e ela ficou a olhar para mim, de ar intrigado.

Não somos namorados, mas é como se o fôssemos. Apaguei o Tinder, espero que finalmente de vez. As pessoas que lá encontrava eram desinteressantes e já só usava aquilo para passar o tempo quando estou aborrecido.

Um destes dias, ela perguntou-me que pessoa ela era para mim. Isto porque sempre que ela me pergunta sobre algo para que não tenho resposta, tenho sempre uma pessoa, amigos, pessoas que sigo, a quem perguntar, qualquer tema que seja o tema, da política à ciência, gramática ou cultura geral, seja através do Twitter, do WhatsApp ou do Instagram. Respondi-lhe, com a voz embargada, que ela era a pessoa para o resto da minha vida, mas não sem que tivéssemos dormido nessa noite separados, cada um num canto da cama, porque, detrás de uma das muralhas que ergui, já lho tinha dito antes e não queria voltar a sentir-me vulnerável da mesma maneira. Porquê? Não me perguntem, porque eu também não sei responder.

Estão a ver aquelas cenas dos filmes ou das séries em que o personagem principal olha para a família, ao longe, e sorri, porque se sente feliz e sortudo pela vida que construiu? Noutro dia imaginei-me num cenário idêntico e foi a ela que a vi, com dois putos a brincar de volta dela.

Merda, estou a ficar velho, estragado e cada vez mais lamechas.


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