Destroçado (2)
E eu corri atrás dela. Sabe Deus o que corri atrás dela. Procurei-a para ter uma resposta, mas sempre encontrei o silêncio dela. Procurei-a, procurei dentro de mim, mas ela não quis dar-me as respostas por que eu tanto ansiava, deixando-me na angustiante dúvida de não saber se o mal estaria em mim.
Continuo hoje, à distância de um tempo que ainda não consigo medir, nem sei se quero conseguir medir, sem essas respostas que sempre quis saber.
Ela não me deixou beijá-la à porta do teatro na noite em que a conheci, porque ainda estava com alguém, e eu respeitei-a mais por isso. Mas se ela conseguiu fazer de mim a melhor versão que já me conheci, o abandono, a ausência e a solidão a que me votou quando decidiu abandonar-me fizeram-me aquilo que hoje sou: uma sombra do que já fui, amargurado e à procura de voltar a ser quem já fui.
Perdi a fé em mim e nas pessoas. No amor.
Ela deixou-me sem uma palavra e tem sido nesse silêncio que tenho vivido desde então. Não há maior traição a alguém que amamos do que votá-los ao esquecimento. Quem trai não sabe, não imagina, o mal que está a causar na outra pessoa. Destrói as suas perspectivas no amor, as relações futuras, amorosas ou não, e, acima de tudo, a sua auto-estima, a confiança em si próprio e a sua paz interior.
É isso.
Desde que me deixou, decidi encher a cabeça, tentar não pensar (tanto) nela. Tenho andado a viajar, a conhecer novos sítios e novas pessoas, a experimentar novas coisas, a ocupar o tempo e, mais importante que isso, a mente. Tento não me lembrar dela, recordar que um dia dormimos na mesma cama, que era com ela, sei-o hoje, que eu queria partilhar o resto da minha vida.
Mas, tal como ela decidiu proteger-se, ao perceber que estava a apaixonar-se por alguém que não sabia se sentia o mesmo, também eu acabei por fazê-lo. Removi-a da minha lista de amigos no Facebook. Sinal dos tempos, eu sei, que há-de fazer-se? Confesso que, se fosse hoje, teria feito a coisa de outra maneira, mas, longe da vista, longe do coração, pensava eu. Acreditava eu, ingénuo, de que seria apenas uma questão de tempo até conseguir esquecê-la e seguir em frente.
Enganei-me. Longe da vista, longe do coração? Tudo tretas. Estava, sei-o agora, profundamente, inesperadamente, irremediavelmente apaixonado.
É que há momentos em que somos apanhados desprevenidos e com a guarda em baixa. É nesses momentos em que ela decide aparecer-me, apoderar-se da minha mente e vencer-me. Impotente, sucumbo à sua presença, procurando perceber porque ainda deixo que isso acontece. Talvez seja por isso que bebo cada vez mais quando saio à noite, quase ao ponto da inconsciência.
Talvez? É claro que é por causa dela. Uma tentativa desesperada de a manter à distância, longe da sanidade por que tanto luto. São estes os pequenos, poucos, momentos em que ela está lá longe, empurrada para o fundo do meu sub-consciente, onde permanece, uma presença a pairar, à espera da melhor altura para sair. É por causa disto que eu sempre te disse que eras mais forte do que eu.
É por isso que, ainda hoje, me arrepio sempre que olho para a fotografia que ainda guardo tua.
Já ultrapassei grandes amores que terminaram. Já sarei feridas provocadas por um coração, o meu, partido. Não é a primeira vez que passo por isto, por isso não é algo que me é, de todo, desconhecido. Mas, a esta distância toda, não consigo entender porque está a custar tanto. Não sei contar o tempo que passou desde que ela me deixou, tornou-se um exercício demasiado doloroso para enfrentar, simplesmente não consigo.
Ela deixou um buraco no meu coração, os meus demónios encontraram nele abrigo e é dele de que agora se alimentam.
(continua…)
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May 1st, 2017 às 14:22
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December 24th, 2018 às 16:17
[…] sou eu quando venho ver-te? Não sou ninguém Deixaste-me assim, desfeito, destroçado Partido, quebrado Derrotado pela dor de perder-te Não sou […]