Critica por favor o meu elevado ego

05/04/2021

capítulo quarto

manifesto — João Oliveira @ 20:00

horas depois de ela ter saído, guilherme permanecia sentado na cama ainda por fazer, a fumar um pachorrento cigarro, como se nada tivesse acontecido. os lençóis, revoltos, o perfume que ainda se sentia no ar e a pouca roupa que ela deixara para trás, no fundo de uma ou outra gaveta, eram os únicos vestígios que havia de que ela ali tinha vivido nos últimos dois anos e meio.

estava tão absorto no seu cigarro, sentado na beira da cama, que nem reparou que ela entretanto regressara a casa, entrara no quarto em silêncio e levara o que restava dos seus pertences. assim se deixou ficar. acendeu outro cigarro, encostou-se na cama, a janela por trás a iluminar o quarto como um cenário de guerra, os cacos do coração os despojos, e entregou-se à inevitável certeza de que ela nunca mais voltaria.

os dias demoraram a passar, mas isso deixou de ter qualquer importância. passou o tempo a tentar afogar a lembrança dela em garrafas de whisky barato que comprava na mercearia da esquina e na droga que ia buscar ao dealer de sempre. era só ele e a bebida, aliás, que o faziam sair de casa, em visitas rápidas, para conseguir a dose diária que o levava a esquecer o peso do mundo lá fora. ou o peso da ausência dela, não sabia dizer bem.

os amigos ligavam-lhe, preocupados. não atendia. eram o tocar do telefone ou a insistência na campainha que, muitas vezes, o despertavam dos pesadelos em que a presença da sara o atormentava e o traziam de volta à realidade. não dava conta, mas muitas vezes acordava aos gritos, banhado em suor.

o telemóvel tocava. ele olhava. não era ela, não interessava. voltava ao que estava a fazer, mesmo que fosse olhar para o vazio. o telemóvel insistia na notificação. não era ela, não interessava. várias foram as ocasiões em que lhe bateram à porta. ignorava, virando-se para o outro lado na cama, pequena demais para a sua solidão.

foram dias e semanas, talvez meses, não sabia bem dizer, em que não deu notícias ou sinal de vida, como se tivesse morrido para o mundo. a cama, sempre revolta e por fazer, era como que a campa que se anunciava para a sua débil existência, que se mantinha, estóica, copo atrás de copo, cigarro atrás de cigarro, garrafa atrás de garrafa.

foi numa dessas tardes de quase inexistência que o toque insistente da campainha o trouxe, uma vez mais, de volta à realidade. não fazia ideia de quanto tempo tinha passado desde que a sara se tinha ido embora. podia ter sido ontem. há uma semana. ou há três meses.

levantou-se, a custo. tentou equilibrar-se, meio grogue ainda, como se estivesse a reaprender a andar, e arrastou-se até à porta, a resmungar com o som da campainha que lhe ecoava na cabeça, o único som que o fazia regressar da dormência e ressaca que lhe tomaram conta do corpo. do outro lado da porta, o andré, velho amigo de longa data,  o confidente e companheiro com quem podia sempre contar, sempre presente nas suas aventuras da juventude.

– guilherme, como estás? está toda a gente preocupada contigo.

a voz dele, do outro lado da porta, exprimia a urgência e preocupação em que tinha vivido nas últimas semanas.

– estás a falar de quê?

– de ti, pá! da sara. de ela se ter ido embora. havia de estar a falar de quê?

era espantosa a maneira como guilherme reagia a este tipo de situações. parecia que o seu próprio mundo lhe passava ao lado, completamente alheado do que o rodeava. nem da própria vida parecia conseguir ser protagonista.

– ah, isso. era só um desastre à espera de acontecer, respondeu-lhe. o que mais me espanta é que tenha demorado tanto tempo a chegar. não te rales, a sério. hei de sobreviver. sempre sobrevivi, não vai ser ela que vai conseguir destruir-me, prosseguiu, com um sorriso triste a cruzar-lhe o rosto.

era verdade. conseguira sempre reerguer-se, por mais destroçado que tivesse ficado, sempre com o coração em pedaços nas mãos, relação falhada atrás de relação falhada, e ele admirava muito isso no amigo.

– claro que era um desastre à espera de acontecer, guilherme. toda a gente sabia disso, mas ninguém sabia como dizer-to. e a verdade é que também não queria ser eu a fazê-lo, desculpa. vocês eram completamente errados um para o outro.

era isto que o guilherme tanto apreciava no andré e a razão por que, ao fim de tantos anos, continuavam amigos. aquela frontalidade irreverente que, sincera, não tinha intenção de ofender e que, tantas vezes, o deixava em apuros. nisso eram um bocado parecidos, como os irmãos separados à nascença que gostavam de dizer que eram.

– o que vais fazer agora?, continuou.

– estava a pensar em ir jantar fora, beber uns copos e amanhã pensar em arrumar a casa. queres vir? pago eu!

– não, idiota! da tua vida. estás desempregado, sem namorada e andas perdido na vida, sem rumo. tudo o que tens gastas em álcool e droga. admira-me como é que nunca foste às putas este tempo todo, sinceramente.

o guilherme ainda tentou contradizer o amigo, mas o tom sério com que ele falava não admitia brincadeiras.

– não te ponhas com merdas, não tentes dizer que não. sabes que é verdade o que estou a dizer-te. tenho falado todos os dias com o rodrigo e ele disse-me que tu só sais de casa para ir comprar-lhe droga e passar na mercearia para levar essa merda de whisky com que andas a matar-te por dentro. estou preocupado contigo. todos estamos.

o guilherme caiu finalmente em si. não fazia ideia de quanto tempo passara desde a fatídica tarde em que a sara saíra de casa. olhou em volta e apercebeu-se de que continuava a falar com o andré através da porta fechada.

– epá, entra, entra. desculpa, nem reparei que ainda estavas aí fora.

o amigo entrou, olhou em volta e ficou espantado com o que encontrou: a casa impecavelmente arrumada, como se todos os dias alguém viesse para tratar dela. continuou até ao quarto. a máquina de escrever em cima da secretária, um monte de folhas dactilografadas de um lado e outras tantas espalhadas pelo chão, algumas amarfanhadas pela ébria insatisfação do autor. de resto, tudo continuava igual, como se a sara ainda ali habitasse.

pegou numas quantas páginas, folheou-as lentamente e sorriu tristemente perante a beleza que assombrava aqueles rascunhos. suspeitava mesmo que guilherme os tinha escrito em completo delírio e que, por isso, talvez nem soubesse o que ali tinha.

enquanto o amigo estava a arranjar-se para saírem, continuou a apanhar as várias folhas que cobriam o chão. colocou-as num monte em cima da secretária, ao lado da máquina de escrever. pelo meio encontrou objectos perdidos, talvez o guilherme os procurasse. entre eles, uma pequena caixa negra de veludo.

segurou a pequena caixa entre os dedos, enquanto decidia se a abria ou não e murmurava: foda-se, mas tu compraste-lhe um anel?

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