Critica por favor o meu elevado ego

28/05/2021

perspectivas

manifesto — João Oliveira @ 02:30

não há nada como a morte para colocar tudo em perspectiva. quando menos esperas, és confrontado com a tua própria pequenez, relembrado da insignificância da tua existência, da fugacidade da vida. és recordado, uma vez mais, de como tudo deixa de fazer sentido, de um momento para o outro.

e se nada faz sentido, ou se tudo tão depressa perde o sentido, para quê então darmo-nos, sequer, ao trabalho?

se é para andar vazio, ao sabor dos encartes da vida. se não há mais gargalhadas, mais sorrisos e abraços, mais beijos e mimos trocados. se tudo o que resta são as lágrimas que te lavam a face até que sequem.

é que, se é para não ser contigo, não faz sentido. não vale a pena. e, assim, aqui permaneço. sem vontade, sem reagir a nada.

isto não é viver, é apenas matar tempo, à espera que o tempo me mate. resignado, só à espera que o tempo passe, que tu regresses, que isto passe. que tudo não passou de um sonho quando eu acordasse.

ou que chegue simplesmente o fim.

enfim.

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05/05/2021

otário

manifesto — João Oliveira @ 02:43

nem vinte semanas, quanto mais vinte anos.

05/04/2021

capítulo quarto

manifesto — João Oliveira @ 20:00

horas depois de ela ter saído, guilherme permanecia sentado na cama ainda por fazer, a fumar um pachorrento cigarro, como se nada tivesse acontecido. os lençóis, revoltos, o perfume que ainda se sentia no ar e a pouca roupa que ela deixara para trás, no fundo de uma ou outra gaveta, eram os únicos vestígios que havia de que ela ali tinha vivido nos últimos dois anos e meio.

estava tão absorto no seu cigarro, sentado na beira da cama, que nem reparou que ela entretanto regressara a casa, entrara no quarto em silêncio e levara o que restava dos seus pertences. assim se deixou ficar. acendeu outro cigarro, encostou-se na cama, a janela por trás a iluminar o quarto como um cenário de guerra, os cacos do coração os despojos, e entregou-se à inevitável certeza de que ela nunca mais voltaria.

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21/03/2021

se é isto um homem (1)

manifesto — João Oliveira @ 23:59

houve uma altura da minha vida em que fui um bocado barney. aliás, poucos eram os gajos que eu conhecia que não queriam ser o barney. não saía todas as noites para levar companhia para casa, é certo, mas pode dizer-se que safava-me bem e sem saber muito bem como. mas que fique claro: não estou a gabar-me. em boa verdade, muito pelo contrário, não é algo de que me orgulhe.

para muitos é currículo, para mim é cadastro.

com o tempo cresci, amadureci e deixei esse barney para trás, porque não queria mais ser esse tipo de pessoa. coleccionar conquistas era uma coisa infantil e decidi então transformar-me noutro barney, num outro joão guilherme. reinventei-me, porque não gostava de quem era e porque queria, sabia que podia, ser melhor. é a isso que me tenho dedicado.

há mais de dez anos que esse joão guilherme está morto e enterrado e, por maior que seja a tentação, é para deixar ficar onde está.

no final de uma noite de alive, depois de muita música e muitos copos à mistura, nos idos de dois mil e dezassete, passei meia-hora, dentro do carro à porta de minha casa, a tentar explicar à c., da melhor maneira que sabia e conseguia, que, apesar de toda a química que havia entre nós – e que era muita, quase se sentia no ar e que todos à nossa volta conseguiam ver –, eu não queria entrar numa relação com ela, porque não era com ela que eu me via no médio prazo. podia correr bem a início, mas acabaríamos por fartar-nos um do outro e, por isso, não valia a pena estarmos a fazer-nos perder tempo, porque ambos queríamos mais do que isso.

um gajo recusar uma relação completamente casual, carnal até e sem qualquer compromisso… i know right? o joão guilherme do passado atirar-se-ia ao ar, reprovaria e chamar-me-ia nomes. mas eu também nunca quis ser igual aos outros. a verdade é que continuámos amigos – apesar de hoje já não o sermos –, está casada e à espera do primeiro filho, se não o teve já.

esforcei-me, portanto, por ser melhor. melhor pessoa, melhor amigo, melhor tudo. corrigi traços da minha personalidade que eram vistos como defeitos, mas só depois de eu perceber que o eram, por vezes tarde demais, porque com eles afastava pessoas de quem gostava. mas também sempre tive a humildade de reconhecer que estava errado quando o estava e nunca tive medo de pedir desculpa quando a situação assim o exigia.

sofri desgostos e desapontamentos, amorosos e não só, que deixaram marcas. físicas, espirituais e emocionais. aprendi que se trata tão-só de uma questão de expectativas e de como geri-las. fui aqui escrevendo sobre tudo isso. este espaço tem sido um cemitério dessas angústias. mas se há coisa que também fiz foi não deixar, nunca, que toda essa negatividade, a maneira como fui (mal)tratado ao longo do tempo fizessem de mim uma pessoa mergulhada no rancor ou na amargura e que isso se reflectisse na minha relação com os outros.

nunca fui um bom namorado, também nunca o escondi. não nasci ensinado. tentei sempre ser a melhor versão de mim mesmo. escrevi aqui também sobre isso em várias ocasiões. sempre fui meio trapalhão, por vezes esquecido, mas nunca negligente no amor. tenho as minhas falhas, cometi erros, mas aprendi com eles e esforcei-me sempre por ser melhor: melhor amigo, melhor parceiro, melhor amante.

as relações servem também para isso, pare crescer juntos. quero acreditar que fui sendo cada vez melhor companheiro, aprendendo e sempre atento aos sinais, preocupado com os detalhes, sempre à procura da palavra certa – por vezes sem consegui-lo, é certo – a dizer no momento em que era mais necessária. fui dando sempre mais de mim e, ao dar todo o meu ser, fui crescendo. em mim, com ela, em nós.

esforcei-me, pois, por ser um outro barney.

enquanto ia trabalhando nestes detalhes que eram, na verdade, maiores do que eu, fui descurando outros aspectos fundamentais, que não sabia existirem, que acabaram por fazer-me deitar tudo a perder. estive tanto tempo solteiro que acabei por ser um merdas. uma merda. o barney que eu quis ser não era melhor do que o barney que eu queria não ser e que, se formos a pensar bem, até se revelou melhor do que como muita gente o pintava.

já fui do pior tipo de pessoa que há: já traí, já magoei, já fiz chorar. mas, lá está, aprendi com os erros e foi por isso que prometi e jurei três vezes sobre os lábios e outras três sobre o coração que ia e queria ser melhor.

mas de que vale dizer que faço e aconteço, que protejo e não deixo que mal nenhum aconteça, se acabo por fazer precisamente o contrário, com pequenas atitudes e comportamentos – irreflectidos e sem intenção, é certo – que contrariam tudo aquilo em que penso, acredito e tudo o que defendo? se acabo por ser precisamente eu a origem e o causador do sofrimento e do afastamento?

de que vale querer ser o super-homem, se depois nem o clark kent consigo ser? só o joão guilherme? um merdas, portanto? um merdas tão grande que acabo por afastar a pessoa mais importante para mim, ao ponto de a fazer deixar de acreditar que posso voltar a ser a pessoa que quero ser e que em tempos fui?

eu sou uma merda.
isto é uma merda, o mundo é uma merda, é tudo uma merda.

27/01/2021

desculpa

manifesto — João Oliveira @ 01:24

ontem sonhei contigo. estavas à porta da escola, à minha espera, de lágrimas nos olhos, como que a adivinhar aquilo que ainda não tive coragem de dizer-te.

não vou poder cumprir a promessa que te fiz.

desculpa, avô.

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