Critica por favor o meu elevado ego

20/06/2020

capítulo primeiro

manifesto — João Oliveira @ 00:03

era sábado à tarde. sim, foi definitivamente a um sábado à tarde. como poderia esquecer aquele sábado à tarde? a ressaca com que acordou adormeceu-lhe a alma e o espírito e ele não conseguiu perceber logo à primeira o que ela estava a dizer-lhe havia quase meia hora.

das palavras que lhe saíam da boca, apenas ecos de sílabas e palavras sem sentido ou ordem aparente lhe chegavam ao cérebro, enquanto a mente divagava, num esforço um tanto ou quanto inglório de tentar construir uma narrativa coerente dos acontecimentos da noite anterior. ao mesmo tempo, ganhava cada vez mais força a certeza de que, ao fim de vários anos de tentativas falhadas, era desta que iria deixar definitivamente de beber.

de repente, ela interrompeu-lhe os pensamentos.

– estás a ouvir o que estou a dizer-te?

foi como um abrupto despertar e ele olhou para ela com um ar de imbecil, completamente espantado, como se não tivesse reparado na sua presença até àquele preciso instante. e, verdade seja dita, não tinha mesmo. por isso, balbuciou uma desculpa qualquer, com a certeza de que, depois das discussões e gritaria que aquelas quatro paredes haviam testemunhado nas últimas semanas, era finalmente desta que ela ia mesmo deixá-lo.

– desculpa, estava a pensar noutra coisa… o que é que estavas a dizer?

ela deteve-se, estarrecida com o que acabara de ouvir. olhou-o com aquele olhar de censura a que ele se habituara havia muito e que, suspeitava, só ele conseguir fazer surgir-lhe na face. levantou-se, vestiu-se à pressa e despediu-se.

ele nem tentou detê-la e, com o bater da porta, saiu da vida dele.


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