Critica por favor o meu elevado ego

14/02/2014

os namorados

prosa — Pedro Paixão @ 09:30

não se pode dizer que vivam juntos. muitas vezes duas pessoas gostam muito uma da outra e não conseguem viver juntas. é o caso deles. casaram-se e depois separaram-se. como toda a gente. mas, passados meses de dor e recíprocas violências, encontraram uma saída que a ambos pareceu inteligente. a ideia foi ela que a teve: passarem os dias de trabalho cada um em sua casa e os dias feriados juntos na casa de um, ou do outro. há coisas animais, emoções incontroláveis e, sobretudo, o constante desgaste dos dias que destroem a alegria — o puro prazer de se estar com alguém, o verdadeiro interesse pela vida do outro — enquanto o sexo se transforma numa rotina mais ou menos enfadonha. ele chama-se joão, ela maria.

jantam à sexta-feira num restaurante chinês e decidem a casa para onde vão. não são precisas malas. na segunda-feira tomam o pequeno almoço juntos e depois despedem-se, cada um partindo para seu lado, com o coração levemente aflito. durante os dias em que não estão juntos, estão proibidos de se falarem ao telefone ou comunicarem de qualquer outra forma. salvo uma emergência imprevisível — um incêndio na cozinha, a morte de um familiar, uma súbita fragilidade da alma.

conheceram-se na faculdade. casaram-se tinham ambos vinte e quatro anos. agora vão fazer trinta e um. é muito forte o amor que os une. um amor só deles, que as pessoas não compreendem e por isso criticam. o amor precisa de ser protegido, abrigado, alimentado com todo o cuidado. o quotidiano é o seu pior inimigo. corrói o imprescindível respeito pelo outro, por quem o outro é. consome a distância que é necessário manter para que o outro possa ser quem é. anuncia a asfixia.

é um engano grande julgar que não se pode viver com esta pessoa mas que se poderá viver com outra, porque na maioria das vezes é a própria vida que nos abandona e afasta. no caso deles há um facto relevante: nenhum deles quer ter filhos, fundar, como se diz, uma família. pelo menos por enquanto. ambos conhecem demasiado bem as famílias. trazer ao mundo uma vida não só é uma responsabilidade de que não se conhecem os limites, como uma inconsciência para a qual nunca se está suficientemente preparado. pelo menos por agora.

ele vive numa casa de onde se vê ao longe o mar, ela num apartamento no centro da cidade. ele é gerente de uma empresa de transportes, ela editora num jornal diário. quando se encontram riem dos acidentes da semana, do ridículo comportamento dos humanos, dos problemas insolúveis. o trágico também pode ser visto de modo a merecer uma gargalhada. falam dos livros que leem, de um programa passado na televisão ou na rádio, do concerto para o qual é preciso comprar bilhetes pela internet, de pequenas coisas sem importância. não se formam aqueles deprimentes silêncios quando já nada há a dizer um ao outro e, dentro de um carro, cada um olha em frente com receio de olhar para o lado e deparar com um desconhecido.

os pais não percebem, os amigos não percebem, ninguém percebe. toda a gente conspira para que aquela frágil e preciosa relação termine. quase todos têm pavor de ficar sozinhos, de morrer sozinhos. o que os agarra é o medo. por isso condenam-se aos piores compromissos. eles, pelo contrário, sabem não só que há em qualquer humano uma solidão que nunca pode ser superada, como só ela abre um espaço onde o coração pode viver livre. os corações também precisam de respirar.

todos os anos, em meses variáveis, fazem uma viagem juntos. no ano passado foram a viena, este ano pensam ir à finlândia. juntos decidem todos os pormenores, embora cada viagem deva ser uma aventura da qual não se conhece o desfecho. juntos vêem-se coisas que de outro modo não se veriam, porque cada um aponta ao outro o que, a sós, lhe poderia passar despercebido. aprende-se mais porque ao falar as palavras chamam pelas coisas tornando-as mais nítidas, mais presentes. num casamento comum há sempre alguém que em determinado momento precisa de se calar. ali não. antes de adormecer, relembram o que viram, sentiram, descobriram. e o sexo vem e chega, sempre poderoso, transportando-os para íngremes paisagens, súbitos abismos. como dois desconhecidos que se desejam loucamente dentro de um comboio e não se recusam ao mais premente prazer.

em viena, o que mais a impressionou foi uma exposição das obras do último ano de vida de picasso, uma gigantesca e heroica luta contra a morte. ele, o que mais apreciou foi visitar a casa de freud, um lugar onde se conspirou contra a sufocante normalidade dos costumes. nenhum dos dois sabe até quando aquela relação poderá durar. pode não se conseguir continuar. pode surgir uma devastadora paixão por uma improvável pessoa. o amor é um trabalho pelo qual se tem continuamente de lutar e o que já se conseguiu dissipa-se no passado. eles estão preparados para o fim. o que importa é acreditar no que ainda há de vir, no que ainda não tem nome. se assim não fosse não valeria a pena. faz parte do amor não se saber quando pode acabar. sempre aquela pequena dor que acompanha o verdadeiro amor.

:: pedro paixão


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5 comentários to “os namorados”

  1. Margarida Dornellas Says:

    obrigada Pedro
    laranja

  2. Graça Says:

    Pois, é, texto deveras intrigante, polemico mesmo para Mentes formatadas, estabelecidas nos padrões sociais. É urgente sair desta masmorra e ser feliz, ter coragem de ser diferente. Julgo que o primeiro passo seja amar-se a si próprio, dando-se liberdade de pensamento e ação a si próprio e ao outro. Bem hajam a todos quantos tiverem coragem de Serem Inteiros e de viver um grande amor assim livre e eterno.

  3. Pedro Says:

    Simplesmente fantástico !! Fabuloso !!
    Há que perceber que há Amores e “amores” e que cada caso é um caso. Ninguém se deve permitir saber ou julgar o que outros pensam ou sentem ! Do seu coração, cada um sabe !!

  4. Horácio Says:

    São provações do passado ninguém se encontra por acaso , o problema é que a maioria ainda não consegue compreender isso e ´só pensa que tem de ser feliz , mas isso passa por entender o outro e suporta-lo pois a evolução passa por ai ,e ninguém evolui sem resgatar o mal que fizeram no passado .( SOFRENDO OU PELO AMOR ) são as duas formas de o fazer. É escolher !

  5. bluegirl Says:

    Que bom, ser surpreendida por um texto do Pedro Paixão! Há cerca de 3 anos, frequentando eu um curso de escrita criativa, tive o privilégio de o ouvir falar sobre o processo de escrita e, também, ler um belíssimo texto seu, também sobre o amor, um amor perdido, no caso. Gostei muito!

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