Critica por favor o meu elevado ego

18/06/2013

da profundeza (2)

prosa — João Oliveira @ 01:42

uma vez disseram-me que o que escrevo é demasiado pessoal, que se sentiam a invadir privacidades ao ler-me.

mas essa é a única maneira que sei ser: íntimo, profundo.

porque eu podia escrever as maiores banalidades sobre o amor, os afectos e os sentimentos que seria lido e teria audiência. seria muito fácil. demasiado até. bastava juntar uma série de palavras bonitas, juntar-lhes uns floreados linguísticos, pintar cenários cor-de-rosa e a coisa estava feita.

mas não é isso que eu pretendo.

podia queixar-me que toda a gente escreve sobre o amor e é verdade que toda a gente escreve sobre o amor, tornou-se um tema banal e fácil de escrever.

mas também não é isso que me motiva.

o que eu quero é deitar cá para fora tudo. as dores, o desalento, a miséria, a amargura toda que grassa cá dentro. fazer a purga do que me apoquenta até me deixar seguir em frente.

mais do que todo o amor e toda a felicidade que possam ser expressos em palavras, é isso que chama a atenção. porque faz parte da natureza humana querer saber da miséria dos outros, querer saber que há alguém que está pior do que nós.

regozijamo-nos intimamente com isso até.

mas cá para fora, queremos passar o contrário. a nossa dor é sempre maior do que a dos outros. a nossa traição foi mais violenta que qualquer outra. o nosso coração foi partido em mais pedaços que os outros.

(…)

[1]


anterior: inconfissões | seguinte: a inevitável verdade (2)

3 comentários to “da profundeza (2)”

  1. da profundeza | Critica por favor o meu elevado ego Says:

    […] 2 […]

  2. isineiro Says:

    mais do que querer saber da miséria dos outros ou que há sempre alguém pior que nós, acho que dá um certo conforto à alma quando encontramos nas palavras de outras pessoas sentimentos ou sensações idênticas ao que sentimos e não conseguimos expressar.. acho que nos faz sentir menos extraterrestres, menos incompreendidos..

    quando o espírito está inquieto, ler coisas de quem expressa bem as maleitas do coração é como uma manta quentinha numa noite fria de inverno.

  3. Gosto de ti Says:

    […] À semelhança das palavras, gosto das relações íntimas, profundas. Só daquelas que valem a pena. Em que sei, conheço e dou a conhecer tudo, sem medos nem contemplações. Não só as alegrias e euforias, mas principalmente cada recanto mais escuro e sombrio da nossa existência. Os medos e frustrações. E aceito e acolho e dou tudo isso de braços abertos. As qualidades e os defeitos. A nossa existência reduzida à mais simples singularidade, o que nos torna cada um único à nossa maneira. […]

Leave a Reply