Critica por favor o meu elevado ego

11/12/2012

a outra

prosa — João Oliveira @ 23:03

durante meses fui o preterido, o outro, a segunda opção. um mero caso, como já te ouvi dizer. foi complicado, mas aprendi a engolir em seco e aceitei que nem tudo é como queremos ou gostávamos que fosse.

vivi dilacerado pela dor de ter sido rejeitado — não pela rejeição em si mas por saber que entre nós os dois não era o único a sentir-me assim. fui vivendo na secreta esperança de que percebesses que tu eras o que eu mais queria. tu eras a mais importante, a primeira, a única, a mais que tudo, a um. aprendi a ser aquele de quem te lembravas de vez em quando ou a quem ligavas quando tinhas algum descargo de consciência.

suportei — com o meu sorriso mais irónico de sempre, devo confessar — ofensas e ameaças de quem te fazia juras de amor e promessas vãs como se meras palavras fossem suficientes para manter uma relação. foram apenas suficientes para, durante alguns meses, fazer-te crer que havia algo mais do que palavras.

só que tu nunca percebeste que tu eras tudo o que eu mais queria e que uma palavra tua bastava para eu deixar tudo e ser todo teu. mas a verdade é que a partir de um certo momento eu também deixei de preocupar-me muito em tentar explicar-te isso.

daí a deixar de querer-te foi um pequeno passo. quando foi que aconteceu? não sei dizer. mas é com algum alívio que me sinto cada vez mais solto de ti.

por isso decidi que bastava. coloquei um ponto final no coração e disse-lhe que não podia haver mais espaço para ti. pelo menos não mais do que aquele que tu fazias por merecer. custasse o que custasse. e tem sido muito mais fácil fazê-lo do que alguma vez pensei.

e eis que, quase sem dar por isso, deixaste de ser a primeira e passaste a ser a outra. nem a segunda ou terceira — como se fosse possível hierarquizar paixões — mas simplesmente a outra.

porque ela — a quem tu tratas com tanto desprezo e desdém como se o pensamento dela te dilacerasse a mente e o simples facto de mencionares o nome dela te queimasse os lábios — não é a outra.

tu é que és.


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