Critica por favor o meu elevado ego

14/10/2016

Destroçado

manifesto — João Oliveira @ 17:13

Ela deixou-me desfeito, destroçado. Acordou um dia decidida de que já não estava bem onde estava e partiu. Sem dizer nada, sem um último beijo ou umas últimas palavras escrevinhadas à pressa num papel amarrotado antes de bater com a porta. Nada.

E deixou-me assim, devastado pelo abandono, pela ausência e pela solidão.

E percebo hoje, à distância de um tempo que ainda não consigo medir, que, com ela, eu era quem sempre quis ser. Ao lado dela, eu era a melhor versão de mim mesmo. E eu quero voltar a ser melhor pessoa.

Quero voltar a ser quem já fui.

Destroçado

Nunca fui um óptimo namorado, mas fui aprendendo a ser melhor com o tempo. As relações servem também para isso. Fui sendo cada vez melhor companheiro, atento aos sinais, preocupado com os detalhes, sempre à procura da palavra certa a dizer no momento em que era mais necessária.

Fui dando sempre mais de mim e, ao dar todo o meu ser, fui crescendo. Em mim, com ela, em nós.

Tudo começou devagar, a medo. Cada um trazia a sua bagagem e cada um o receio de mostrá-la. É assim que nascem muitas relações. Esta começou com a promessa de que tudo iria acontecer devagar, até porque nenhum de nós estaria à procura de algo muito, ou demasiado, sério. E, a princípio, assim foi.

Tão devagar que nem na primeira noite, à porta do teatro, me deixou que a beijasse. E eu respeitei-a (ainda) mais por isso.

Buongiorno Principessa

Tudo corria bem. Fazíamos planos a dois e conseguíamos estar juntos, apesar dos quilómetros que nos separavam. Aprendi desde cedo que nada, nem mesmo a distância, consegue separar-nos daquilo que mais queremos.

E eu fazia esses quilómetros de bom grado, o desejo de estar com ela era o meu combustível. Estávamos bem e, olhando em retrospectiva para as (poucas) fotografias que restaram, vejo agora que era uma altura em que estava mesmo feliz. Era, lá está, a melhor versão de mim próprio que já conheci.

agá grande

Mas, quando crescemos juntos, também os sentimentos evoluem para algo mais, uma coisa que deixou de ser a tímida atracção inicial de quem ainda está a conhecer-se. E por vezes, demasiadas vezes, senão quase sempre, crescem depressa demais. E foi isso que nos precipitou para o fim.

De repente, sem dar por ela, estávamos apaixonados. Há que não ter receio das palavras, ou dos sentimentos.

Estávamos apaixonados.

apaixonados, sem os advérbios de modo de que os escritores da moda tanto gostam de usar e abusar, aqueles que embelezam as palavras, que em nada beliscam o sentimento mas que ajudam a vender livros.

Apenas apaixonados, mesmo quando queríamos levar as coisas devagar, sem que aquilo — o quer que seja que aquilo fosse — que tínhamos entre nós se tornasse em algo demasiado sério.

É esta a beleza dos sentimentos humanos e que faz deles algo tão assombroso. São tão imprevisíveis que muitas vezes nascem, crescem e morrem sem que nos apercebamos de que viveram em nós.

Mas que fazemos quando nos magoaram antes, nos abriram o peito a sangue frio, rasgaram a alma sem dó nem piedade e levaram um pouco de nós consigo? O que fazemos quando percebemos que regressámos a esse lugar?

O primeiro instinto é protegermo-nos.

Não sabemos se o outro sente o mesmo. Não sabemos se a jornada que ambos começámos juntos nos levou, de mãos dadas, ao mesmo lugar. Não sabemos. Não sabemos se queremos saber. Não sabemos se queremos arriscar. Há o medo de não vermos o sentimento correspondido e de voltarmos a perder o chão. A queda é demasiado dolorosa para se arriscar dar o passo por algo que não temos a certeza se existe do outro lado.

O que faríamos se não tivéssemos medo?

Ela apercebeu-se onde estava primeiro do que eu.

Percebeu que estava a perder o controlo e não quis arriscar falar. Não quis saber se eu sentia o mesmo. Com o medo com que não conseguiu lidar, ou conter, decidiu que já não estava bem onde estava e partiu.

Compreendo a escolha que tomou e o porquê de o ter feito. Não consigo censurá-la por ter escolhido esse caminho, embora eu tivesse feito as coisas de maneira diferente.

Afinal de contas, quem melhor para nos proteger do que nós mesmos?

Ela não sabia que eu sentia, ainda sem o saber, o mesmo. Não sabia que eu iria sempre protegê-la, dos seus medos e das suas inseguranças. Sempre, sem hesitar.

Destroçado

É que também eu estava apaixonado, sei-o agora. E eu continuo irremediavelmente apaixonado. Agora sim, ouso dizê-lo, com todos aqueles advérbios de modo de que os escritores da moda tanto gostam de usar e abusar, aqueles que embelezam as palavras, que em nada beliscam o sentimento mas que ajudam a vender livros.

(continua…)

[2]


anterior: xis (3) | seguinte: Outra vez

3 comentários to “Destroçado”

  1. xis (2) Says:

    […] sou eu quando venho ver-te? Não sou ninguém Deixaste-me assim, desfeito, destroçado Partido, quebrado Derrotado pela dor de perder-te Não sou […]

  2. Conversas no limbo da saudade Says:

    […] Não demorou muito a que tivesse entrado naquele limbo que apenas a nostalgia consegue despertar em nós e para onde só ela sabe transportar-nos, o mesmo em que a saudade nos faz mergulhar no subconsciente para ir buscar as memórias que nem sabíamos ainda guardar. Nessa altura já me tinhas abandonado e eu deixei-me simplesmente levar pela música. […]

  3. Destroçado (2) Says:

    […] Ela não me deixou beijá-la à porta do teatro na noite em que a conheci, porque ainda estava com alguém, e eu respeitei-a mais por isso. Mas se ela conseguiu fazer de mim a melhor versão que já me conheci, o abandono, a ausência e a solidão a que me votou quando decidiu abandonar-me fizeram-me aquilo que hoje sou: uma sombra do que já fui, amargurado e à procura de voltar a ser quem já fui. […]

Leave a Reply