Critica por favor o meu elevado ego

01/05/2017

Destroçado (2)

manifesto — João Oliveira @ 03:31

E eu corri atrás dela. Sabe Deus o que corri atrás dela. Procurei-a para ter uma resposta, mas sempre encontrei o silêncio dela. Procurei-a, procurei dentro de mim, mas ela não quis dar-me as respostas por que eu tanto ansiava, deixando-me na angustiante dúvida de não saber se o mal estaria em mim.

Continuo hoje, à distância de um tempo que ainda não consigo medir, nem sei se quero conseguir medir, sem essas respostas que sempre quis saber.

Ela não me deixou beijá-la à porta do teatro na noite em que a conheci, porque ainda estava com alguém, e eu respeitei-a mais por isso. Mas se ela conseguiu fazer de mim a melhor versão que já me conheci, o abandono, a ausência e a solidão a que me votou quando decidiu abandonar-me fizeram-me aquilo que hoje sou: uma sombra do que já fui, amargurado e à procura de voltar a ser quem já fui.

Perdi a fé em mim e nas pessoas. No amor.

Ela deixou-me sem uma palavra e tem sido nesse silêncio que tenho vivido desde então. Não há maior traição a alguém que amamos do que votá-los ao esquecimento. Quem trai não sabe, não imagina, o mal que está a causar na outra pessoa. Destrói as suas perspectivas no amor, as relações futuras, amorosas ou não, e, acima de tudo, a sua auto-estima, a confiança em si próprio e a sua paz interior.

É isso.

Desde que me deixou, decidi encher a cabeça, tentar não pensar (tanto) nela. Tenho andado a viajar, a conhecer novos sítios e novas pessoas, a experimentar novas coisas, a ocupar o tempo e, mais importante que isso, a mente. Tento não me lembrar dela, recordar que um dia dormimos na mesma cama, que era com ela, sei-o hoje, que eu queria partilhar o resto da minha vida.

Mas, tal como ela decidiu proteger-se, ao perceber que estava a apaixonar-se por alguém que não sabia se sentia o mesmo, também eu acabei por fazê-lo. Removi-a da minha lista de amigos no Facebook. Sinal dos tempos, eu sei, que há-de fazer-se? Confesso que, se fosse hoje, teria feito a coisa de outra maneira, mas, longe da vista, longe do coração, pensava eu. Acreditava eu, ingénuo, de que seria apenas uma questão de tempo até conseguir esquecê-la e seguir em frente.

Enganei-me. Longe da vista, longe do coração? Tudo tretas. Estava, sei-o agora, profundamente, inesperadamente, irremediavelmente apaixonado.

É que há momentos em que somos apanhados desprevenidos e com a guarda em baixa. É nesses momentos em que ela decide aparecer-me, apoderar-se da minha mente e vencer-me. Impotente, sucumbo à sua presença, procurando perceber porque ainda deixo que isso acontece. Talvez seja por isso que bebo cada vez mais quando saio à noite, quase ao ponto da inconsciência.

Talvez? É claro que é por causa dela. Uma tentativa desesperada de a manter à distância, longe da sanidade por que tanto luto. São estes os pequenos, poucos, momentos em que ela está lá longe, empurrada para o fundo do meu sub-consciente, onde permanece, uma presença a pairar, à espera da melhor altura para sair. É por causa disto que eu sempre te disse que eras mais forte do que eu.

É por isso que, ainda hoje, me arrepio sempre que olho para a fotografia que ainda guardo tua.

Já ultrapassei grandes amores que terminaram. Já sarei feridas provocadas por um coração, o meu, partido. Não é a primeira vez que passo por isto, por isso não é algo que me é, de todo, desconhecido. Mas, a esta distância toda, não consigo entender porque está a custar tanto. Não sei contar o tempo que passou desde que ela me deixou, tornou-se uma exercício demasiado doloroso para enfrentar, simplesmente não consigo.

Ela deixou um buraco no meu coração, os meus demónios encontraram nele abrigo e agora alimentam-se dele.

(continua…)

[1]


19/04/2017

Conversas no limbo da saudade

manifesto — João Oliveira @ 09:38

Noutro dia ia de táxi para um daqueles serviços de agenda que já não recordo bem. Era Verão, final de tarde e o sol queimava o horizonte com as cores mais quentes que possas imaginar. Estava distraído a observar a paisagem que deixava um borrão na janela do carro, absorto nos pensamentos que vagueavam entre o que ia vendo pelo caminho, sem se fixarem mais do que breves segundos no que via.

De repente, a rádio começou a tocar uns acordes familiares, que me despertaram bruscamente, apesar da suavidade da melodia. Era aquela música que uma vez te dediquei, confesso que não sei bem em que ocasião, a mesma que, confessaste-me com a voz embargada, era a música dos teus pais. Desde então, aquela guitarrada suave passou a ser também a nossa música. Uma das nossas músicas.

Fechei os olhos e deixei-me embalar pela nostalgia que inesperadamente me abraçou no banco de trás daquele taxi, que continuava a percorrer as ruas da cidade, empenhado na sua missão de me levar ao meu destino, enquanto o mundo lá fora seguia indiferente na sua rotina àquele momento único de que o universo era a única testemunha.

Não demorou muito a que tivesse entrado naquele limbo que apenas a nostalgia consegue despertar em nós e para onde só ela sabe transportar-nos, o mesmo em que a saudade nos faz mergulhar no subconsciente para ir buscar as memórias que nem sabíamos ainda guardar. Nessa altura já me tinhas abandonado e eu deixei-me simplesmente levar pela música.

E tudo voltou, assim, de repente. Os momentos que passámos juntos, os sorrisos que trocámos, as gargalhadas soltas ao vento, os olhares cúmplices de uma paixão que timidamente sentíamos a crescer sem conseguir identificá-la, o toque suave dos nossos dedos entrelaçados uns nos outros enquanto nos agarrávamos àqueles preciosos momentos, sem pensar sequer no que ainda estaria por vir.

Não fui o único, no entanto, a quem a nostalgia tocou ao som da música. Talvez inspirado por aqueles acordes com que Deus nos abençoou através dos ágeis dedos do Carlos Santana, o taxista decidiu desabafar os seus desamores comigo. Ou talvez só quisesse alguém com quem falar.

Enquanto percorríamos velozmente o asfalto, contou-me todas as suas mágoas, as aventuras e desventuras amorosas que tinha passado com a sua mulher de mais de 30 anos de casamento, 37 de namoro. Dizia-me que não a suportava, que ela lhe moía o juízo todos os dias mas, ao mesmo tempo, não sabia viver sem ela. Era ela a mulher da vida dele e por quem saía todos os dias de casa ainda antes de o sol nascer em direcção àquela praça de táxis, na 5 de Outubro, que lhe consumia o espírito à procura de poder dar à sua mais que tudo tudo o que desejasse.

Dissertou sobre os signos, de como ele era Touro e ela era Sagitário, e de como, ainda assim, eram unha com carne. Pelo meio falámos um bocadinho sobre arquitectura, de como o edifício da PT, já perto das Avenidas Novas, nunca passava de moda e eu anuí, embora o achasse um horrível mamarracho. Voltámos à mulher dele.

“É dia sim, dia não. Depois é dia sim, dia sim. Querem controlar tudo e mais alguma coisa. Sagitário é um espírito livre… Eu adoro viajar, conhecer o mundo. Você não?”, perguntou-me, sem esperar resposta. “Gosto”, respondi-lhe ainda assim. Quem não gosta? Escrevo-te estas palavras, aliás, a bordo do voo que me vai levar a Paris, a cidade onde sempre quis levar-te, não tivesses interrompido, se não o nosso, pelo menos, o meu sonho.

Continuámos a nossa conversa. Ou o monólogo dele, convicto de que o que aquilo era um diálogo… Futebol, era o que faltava. Qual é o taxista que não fala sobre futebol? Todos temos dentro de nós o seu quinhão de treinador de bancada, mas um taxista é claramente doutorado na matéria.

“Sabe como é que se chama o meu blutu? (assim mesmo, não há cá inglês que valha a um taxista que, confessou-me, sem vergonha, como se isso fosse motivo, não tinha mais do que a quarta classe)… Eusébio!”

“Eu não sou… não sou benfiquista”, tentei responder-lhe, à espera das clássicas duas perguntas que me fazem sempre que discutimos futebol na capital. “É sportinguista?” Também não. “Portista?” Também não. “Sou de Coimbra…” “Académica!”, exclamou assim que ouviu o nome da nossa mágica cidade, sem me deixar terminar a frase. “Claro”, limitei-me a responder.

Continuou a divagar e eu limitei-me a ouvir, com um sorriso. A música já tinha terminado havia algum tempo, mas o taxista parecia alheio ao que o rodeava. Tenho pena de não ter fixado o nome ou o número do carro dele.

“Aceitei ser praça em Coimbra. Sou da Covilhã e quando fui tropa foi lá que fiz a recruta… em Santa Clara. De lá vim para a capital e depois fui para África, Angola… Mas gostei, gostei da experiência”. Aqui começámos a divagar, enquanto a locutora nos dava conta das notícias daquele final de tarde.

“Fui para lá em 1972 e, olhe, faz amanhã… Não, amanhã ainda estava em Angola. Faz no dia 1 de Maio 40 anos que cá cheguei… Voltámos cinco dias depois do 25 de Abril e não se notou nada, tanto que o embarque até atrasou por causa do que se tinha passado e não foi nada de especial. Só quando cá chegámos… Do aeroporto até à Calçada da Ajuda era um mar de gente que gritava ‘Vitória! Vitória!’ e nós só nos perguntávamos mas que vitória? Só depois de começarem a falar é que nos apercebemos da viragem…”

Um momento de silêncio, o mais longo de toda a viagem, em que apenas se ouvia a música que saía do sistema de som gasto do táxi. Prosseguimos o nosso caminho, continuo sem saber para onde fui nessa tarde, mas está a saber-me bem recordar esta conversa.

“É aquele hotel grande ao pé da Antral, não é? É”. Gosto muito da maneira como os taxistas fazem as perguntas e respondem logo de seguida, sem esperar réplica. “Estou a falar daquele centro comercial… o Olaias Plaza”, corrigi-o. “Ah, pois é, tem razão. Então, é a mesma coisa… O hotel é… tem razão, tem razão”.

Não sei que música foi que passou a seguir, mas o momento já tinha morrido. Concentrámo-nos apenas em seguir viagem e chegar ao destino o mais rapidamente possível. De repente, voltámos a ser dois estranhos naquele táxi. “O outro é o Altis Park…”, ainda retorquiu.

Cheguei. Saí do táxi, agradeci ao taxista por aqueles momentos – não sei ao certo quanto tempo passou desde que entrei no táxi até ter chegado ao meu destino -, mas senti que o seu propósito tinha sido cumprido: levar-me, mais do que ao sítio onde tinha de ir fazer reportagem, onde eu precisava de ir. E ele nunca imaginará o quão importante isso foi.


13/04/2017

xis (2)

poesia — João Oliveira @ 00:00

Ainda há noites em que sonho com ela
Lembro um tempo em que a vida me sorria pela janela
E o corpo dói e o coração lateja
A alma sem norte ou rumo ou o que seja
Mas pelos vistos para ela um homem com agá grande não chegava
E eu ainda não sabia mas a cada dia que passava
Era cada vez mais certo que eu a amava
Uma inevitabilidade que o tempo só adiava

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti

Quem sou eu quando venho ver-te?
Não sou ninguém
Deixaste-me assim, desfeito, destroçado
Partido, quebrado
Derrotado pela dor de perder-te
Não sou ninguém

Quando entro em casa e tu já não estás
Tu já foste embora e só me resta olhar para trás
E eu não cheguei a tempo de dizer-te não vás
Tento reerguer-me mas não tenho a certeza se sou capaz
O silêncio ecoa nas paredes da tua ausência
Perdi o norte, o rumo, a referência
É que para sempre já foi há muito tempo
E as saudades tornam-se um tormento

Quem sou eu quando venho ver-te?
Não sou ninguém
Deixaste-me assim, desfeito, destroçado
Partido, quebrado
Derrotado pela dor de perder-te
Não sou ninguém

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta dor portuguesa
tão mansa quase vegetal


07/02/2017

Do alto do caos

prosa — João Oliveira @ 00:45

Estava, fazia algum tempo, compenetrado no que estava a fazer. Estava tão concentrado que demorou algum tempo a que a voz dela, na divisão ao lado, lhe interrompesse o trabalho.

Pousou a caneta e ficou apenas a ouvir. Estava alegremente a trocar mensagens de voz com a Sofia, a amiga com quem partilhava casa no Dubai e que estava a mais de seis mil quilómetros de distância, um hábito cada vez mais em voga e que ele nunca compreendera por completo.

Ficou, em silêncio, a ouvi-las pela porta semi-entreaberta. Não fora o que estavam a discutir que lhe chamara a atenção. Eram trivialidades da vida de quem partilha um espaço, ainda que separadas, momentaneamente, por milhares de quilómetros. Não. O que o cativara fora a voz da Sofia.

Era uma voz alegre e cheia de vida, contagiante até. Daquelas que faziam surgir o sol por detrás das nuvens num dia chuvoso, como nos filmes. Despertou-lhe a atenção e deixou-o curioso por associar uma cara àquela voz.

Comentou com ela o que sentira enquanto trocavam mensagens de voz e ela, depois de lhe falar da amiga, saiu-se com esta:

– Olha, acho que tu e a Sofia faziam um casal espectacular. Queres que ta apresente?

– Não, deixa lá, respondeu-lhe simplesmente.

Surpreendida pela resposta, insistiu.

– Tens a certeza? Olha que ela é muito fixe e acho mesmo que vocês ficavam bem juntos.

Ele insistiu: A sério, não vale a pena.

– Mas porquê?

Suspirou ao responder-lhe: Com toda a franqueza, não estou onde esperava estar aos 30. E, do alto do caos em que a minha vida está, não vou arrastar ninguém para o meio desta confusão que ainda não consegui deslindar. Não seria justo.

Compreendeu o que ele quis dizer e anuiu silenciosamente, ao mesmo tempo que lhe dava um beijo na testa, orgulhosa ao perceber que, apesar de continuar meio perdido na vida, já não era o miúdo irresponsável que conhecera anos antes.


25/11/2016

Não sei bem

poesia — João Oliveira @ 05:18

Não sei bem
onde é que tu terminas

Perdi a noção
das minhas próprias fronteiras
e dos meus limites

Porque a tua indiferença
destrói-me

O teu silêncio
crucifica-me

E esta distância
mata-me.


17/10/2016

Outra vez

poesia — João Oliveira @ 01:32

Tu nunca vais ser ela
Eu nunca hei-de ser ele
E nós nunca seremos quem já fomos

Mas se eu quisesse que tu fosses ela
Nunca a teria deixado
E se eu quisesse ser ele
Não teria roubado o teu coração
E ter-te-ia deixado com quem estavas

Mas a maior angústia
é
que
nós
nunca
seremos
nós

outra vez.


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