Critica por favor o meu elevado ego

19/04/2017

Conversas no limbo da saudade

manifesto — João Oliveira @ 09:38

Noutro dia ia de táxi para um daqueles serviços de agenda que já não recordo bem. Era Verão, final de tarde, e o sol queimava o horizonte com as cores mais quentes que possas imaginar. Estava distraído a observar a paisagem que deixava um borrão na janela do carro, absorto nos pensamentos que vagueavam entre o que ia vendo pelo caminho, sem se fixarem mais do que breves segundos no que via.

De repente, a rádio começou a tocar uns acordes familiares, que me despertaram bruscamente, apesar da suavidade da melodia. Era aquela música que uma vez te dediquei, confesso que não sei bem em que ocasião, a mesma que, confessaste-me com a voz embargada, era a música dos teus pais. Desde então, aquela guitarrada suave passou a ser também a nossa música. Uma das nossas músicas.

Fechei os olhos e deixei-me embalar pela nostalgia que inesperadamente me abraçou no banco de trás daquele taxi, que continuava a percorrer as ruas da cidade, empenhado na sua missão de me levar ao meu destino, enquanto o mundo lá fora seguia indiferente na sua rotina àquele momento único de que o universo era a única testemunha.

Não demorou muito a que tivesse entrado naquele limbo que apenas a nostalgia consegue despertar em nós e para onde só ela sabe transportar-nos, o mesmo em que a saudade nos faz mergulhar no subconsciente para ir buscar as memórias que nem sabíamos ainda guardar. Nessa altura já me tinhas abandonado e eu deixei-me simplesmente levar pela música.

E tudo voltou, assim, de repente. Os momentos que passámos juntos, os sorrisos que trocámos, as gargalhadas soltas ao vento, os olhares cúmplices de uma paixão que timidamente sentíamos a crescer sem conseguir identificá-la, o toque suave dos nossos dedos entrelaçados uns nos outros enquanto nos agarrávamos àqueles preciosos momentos, sem pensar sequer no que ainda estaria por vir.

Não fui o único, no entanto, a quem a nostalgia tocou ao som da música. Talvez inspirado por aqueles acordes com que Deus nos abençoou através dos ágeis dedos do Carlos Santana, o taxista decidiu desabafar os seus desamores comigo. Ou talvez só quisesse alguém com quem falar.

Enquanto percorríamos velozmente o asfalto, contou-me todas as suas mágoas, as aventuras e desventuras amorosas que tinha passado com a sua mulher de mais de 30 anos de casamento, 37 de namoro. Dizia-me que não a suportava, que ela lhe moía o juízo todos os dias mas, ao mesmo tempo, não sabia viver sem ela. Era ela a mulher da vida dele e por quem saía todos os dias de casa ainda antes de o sol nascer em direcção àquela praça de táxis, na 5 de Outubro, que lhe consumia o espírito à procura de poder dar à sua mais que tudo tudo o que desejasse.

Dissertou sobre os signos, de como ele era Touro e ela era Sagitário, e de como, ainda assim, eram unha com carne. Pelo meio falámos um bocadinho sobre arquitectura, de como o edifício da PT, já perto das Avenidas Novas, nunca passava de moda e eu anuí, embora o achasse um horrível mamarracho. Voltámos à mulher dele.

“É dia sim, dia não. Depois é dia sim, dia sim. Querem controlar tudo e mais alguma coisa. Sagitário é um espírito livre… Eu adoro viajar, conhecer o mundo. Você não?”, perguntou-me, sem esperar resposta. “Gosto”, respondi-lhe ainda assim. Quem não gosta? Escrevo-te estas palavras, aliás, a bordo do voo que me vai levar a Paris, a cidade onde sempre quis levar-te, não tivesses interrompido, se não o nosso, pelo menos, o meu sonho.

Continuámos a nossa conversa. Ou o monólogo dele, convicto de que o que aquilo era um diálogo… Futebol, era o que faltava. Qual é o taxista que não fala sobre futebol? Todos temos dentro de nós o seu quinhão de treinador de bancada, mas um taxista é claramente doutorado na matéria.

“Sabe como é que se chama o meu blutu? (assim mesmo, não há cá inglês que valha a um taxista que, confessou-me, sem vergonha, como se isso fosse motivo, não tinha mais do que a quarta classe)… Eusébio!”

“Eu não sou… não sou benfiquista”, tentei responder-lhe, à espera das clássicas duas perguntas que me fazem sempre que discutimos futebol na capital. “É sportinguista?” Também não. “Portista?” Também não. “Sou de Coimbra…” “Académica!”, exclamou assim que ouviu o nome da nossa mágica cidade, sem me deixar terminar a frase. “Claro”, limitei-me a responder.

Continuou a divagar e eu limitei-me a ouvir, com um sorriso. A música já tinha terminado havia algum tempo, mas o taxista parecia alheio ao que o rodeava. Tenho pena de não ter fixado o nome ou o número do carro dele.

“Aceitei ser praça em Coimbra. Sou da Covilhã e quando fui tropa foi lá que fiz a recruta… em Santa Clara. De lá vim para a capital e depois fui para África, Angola… Mas gostei, gostei da experiência”. Aqui começámos a divagar, enquanto a locutora nos dava conta das notícias daquele final de tarde.

“Fui para lá em 1972 e, olhe, faz amanhã… Não, amanhã ainda estava em Angola. Faz no dia 1 de Maio 40 anos que cá cheguei… Voltámos cinco dias depois do 25 de Abril e não se notou nada, tanto que o embarque até atrasou por causa do que se tinha passado e não foi nada de especial. Só quando cá chegámos… Do aeroporto até à Calçada da Ajuda era um mar de gente que gritava ‘Vitória! Vitória!’ e nós só nos perguntávamos mas que vitória? Só depois de começarem a falar é que nos apercebemos da viragem…”

Um momento de silêncio, o mais longo de toda a viagem, em que apenas se ouvia a música que saía do sistema de som gasto do táxi. Prosseguimos o nosso caminho, continuo sem saber para onde fui nessa tarde, mas está a saber-me bem recordar esta conversa.

“É aquele hotel grande ao pé da Antral, não é? É”. Gosto muito da maneira como os taxistas fazem as perguntas e respondem logo de seguida, sem esperar réplica. “Estou a falar daquele centro comercial… o Olaias Plaza”, corrigi-o. “Ah, pois é, tem razão. Então, é a mesma coisa… O hotel é… tem razão, tem razão”.

Não sei que música foi que passou a seguir, mas o momento já tinha morrido. Concentrámo-nos apenas em seguir viagem e chegar ao destino o mais rapidamente possível. De repente, voltámos a ser dois estranhos naquele táxi. “O outro é o Altis Park…”, ainda retorquiu.

Cheguei. Saí do táxi, agradeci ao taxista por aqueles momentos – não sei ao certo quanto tempo passou desde que entrei no táxi até ter chegado ao meu destino -, mas senti que o seu propósito tinha sido cumprido: levar-me, mais do que ao sítio onde tinha de ir fazer reportagem, onde eu precisava de ir. E ele nunca imaginará o quão importante isso foi.


13/04/2017

xis (2)

poesia — João Oliveira @ 00:00

Ainda há noites em que sonho com ela
Lembro um tempo em que a vida me sorria pela janela
E o corpo dói e o coração lateja
A alma sem norte ou rumo ou o que seja
Mas pelos vistos para ela um homem com agá grande não chegava
E eu ainda não sabia mas a cada dia que passava
Era cada vez mais certo que eu a amava
Uma inevitabilidade que o tempo só adiava

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti

Quem sou eu quando venho ver-te?
Não sou ninguém
Deixaste-me assim, desfeito, destroçado
Partido, quebrado
Derrotado pela dor de perder-te
Não sou ninguém

Quando entro em casa e tu já não estás
Tu já foste embora e só me resta olhar para trás
E eu não cheguei a tempo de dizer-te não vás
Tento reerguer-me mas não tenho a certeza se sou capaz
O silêncio ecoa nas paredes da tua ausência
Perdi o norte, o rumo, a referência
É que para sempre já foi há muito tempo
E as saudades tornam-se um tormento

Quem sou eu quando venho ver-te?
Não sou ninguém
Deixaste-me assim, desfeito, destroçado
Partido, quebrado
Derrotado pela dor de perder-te
Não sou ninguém

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta dor portuguesa
tão mansa quase vegetal


07/02/2017

Do alto do caos

prosa — João Oliveira @ 00:45

Estava, fazia algum tempo, compenetrado no que estava a fazer. Estava tão concentrado que demorou algum tempo a que a voz dela, na divisão ao lado, lhe interrompesse o trabalho.

Pousou a caneta e ficou apenas a ouvir. Estava alegremente a trocar mensagens de voz com a Sofia, a amiga com quem partilhava casa no Dubai e que estava a mais de seis mil quilómetros de distância, um hábito cada vez mais em voga e que ele nunca compreendera por completo.

Ficou, em silêncio, a ouvi-las pela porta semi-entreaberta. Não fora o que estavam a discutir que lhe chamara a atenção. Eram trivialidades da vida de quem partilha um espaço, ainda que separadas, momentaneamente, por milhares de quilómetros. Não. O que o cativara fora a voz da Sofia.

Era uma voz alegre e cheia de vida, contagiante até. Daquelas que faziam surgir o sol por detrás das nuvens num dia chuvoso, como nos filmes. Despertou-lhe a atenção e deixou-o curioso por associar uma cara àquela voz.

Comentou com ela o que sentira enquanto trocavam mensagens de voz e ela, depois de lhe falar da amiga, saiu-se com esta:

– Olha, acho que tu e a Sofia faziam um casal espectacular. Queres que ta apresente?

– Não, deixa lá, respondeu-lhe simplesmente.

Surpreendida pela resposta, insistiu.

– Tens a certeza? Olha que ela é muito fixe e acho mesmo que vocês ficavam bem juntos.

Ele insistiu: A sério, não vale a pena.

– Mas porquê?

Suspirou ao responder-lhe: Com toda a franqueza, não estou onde esperava estar aos 30. E, do alto do caos em que a minha vida está, não vou arrastar ninguém para o meio desta confusão que ainda não consegui deslindar. Não seria justo.

Compreendeu o que ele quis dizer e anuiu silenciosamente, ao mesmo tempo que lhe dava um beijo na testa, orgulhosa ao perceber que, apesar de continuar meio perdido na vida, já não era o miúdo irresponsável que conhecera anos antes.


25/11/2016

Não sei bem

poesia — João Oliveira @ 05:18

Não sei bem
onde é que tu terminas

Perdi a noção
das minhas próprias fronteiras
e dos meus limites

Porque a tua indiferença
destrói-me

O teu silêncio
crucifica-me

E esta distância
mata-me.


17/10/2016

Outra vez

poesia — João Oliveira @ 01:32

Tu nunca vais ser ela
Eu nunca hei-de ser ele
E nós nunca seremos quem já fomos

Mas se eu quisesse que tu fosses ela
Nunca a teria deixado
E se eu quisesse ser ele
Não teria roubado o teu coração
E ter-te-ia deixado com quem estavas

Mas a maior angústia
é
que
nós
nunca
seremos
nós

outra vez.


14/10/2016

Destroçado

manifesto — João Oliveira @ 17:13

Ela deixou-me desfeito, destroçado. Acordou um dia decidida de que já não estava bem onde estava e partiu. Sem dizer nada, sem um último beijo ou umas últimas palavras escrevinhadas à pressa num papel amarrotado antes de bater com a porta. Nada.

E deixou-me assim, devastado pelo abandono, pela ausência e pela solidão.

E percebo hoje, à distância de um tempo que ainda não consigo medir, que, com ela, eu era quem sempre quis ser. Ao lado dela, eu era a melhor versão de mim mesmo. E eu quero voltar a ser melhor pessoa.

Quero voltar a ser quem já fui.

Destroçado

Nunca fui um óptimo namorado, mas fui aprendendo a ser melhor com o tempo. As relações servem também para isso. Fui sendo cada vez melhor companheiro, atento aos sinais, preocupado com os detalhes, sempre à procura da palavra certa a dizer no momento em que era mais necessária.

Fui dando sempre mais de mim e, ao dar todo o meu ser, fui crescendo. Em mim, com ela, em nós.

Tudo começou devagar, a medo. Cada um trazia a sua bagagem e cada um o receio de mostrá-la. É assim que nascem muitas relações. Esta começou com a promessa de que tudo iria acontecer devagar, até porque nenhum de nós estaria à procura de algo muito, ou demasiado, sério. E, a princípio, assim foi.

Tão devagar que nem na primeira noite, à porta do teatro, me deixou que a beijasse. E eu respeitei-a (ainda) mais por isso.

Buongiorno Principessa

Tudo corria bem. Fazíamos planos a dois e conseguíamos estar juntos, apesar dos quilómetros que nos separavam. Aprendi desde cedo que nada, nem mesmo a distância, consegue separar-nos daquilo que mais queremos.

E eu fazia esses quilómetros de bom grado, o desejo de estar com ela era o meu combustível. Estávamos bem e, olhando em retrospectiva para as (poucas) fotografias que restaram, vejo agora que era uma altura em que estava mesmo feliz. Era, lá está, a melhor versão de mim próprio que já conheci.

agá grande

Mas, quando crescemos juntos, também os sentimentos evoluem para algo mais, uma coisa que deixou de ser a tímida atracção inicial de quem ainda está a conhecer-se. E por vezes, demasiadas vezes, senão quase sempre, crescem depressa demais. E foi isso que nos precipitou para o fim.

De repente, sem dar por ela, estávamos apaixonados. Há que não ter receio das palavras, ou dos sentimentos.

Estávamos apaixonados.

apaixonados, sem os advérbios de modo de que os escritores da moda tanto gostam de usar e abusar, aqueles que embelezam as palavras, que em nada beliscam o sentimento mas que ajudam a vender livros.

Apenas apaixonados, mesmo quando queríamos levar as coisas devagar, sem que aquilo — o quer que seja que aquilo fosse — que tínhamos entre nós se tornasse em algo demasiado sério.

É esta a beleza dos sentimentos humanos e que faz deles algo tão assombroso. São tão imprevisíveis que muitas vezes nascem, crescem e morrem sem que nos apercebamos de que viveram em nós.

Mas que fazemos quando nos magoaram antes, nos abriram o peito a sangue frio, rasgaram a alma sem dó nem piedade e levaram um pouco de nós consigo? O que fazemos quando percebemos que regressámos a esse lugar?

O primeiro instinto é protegermo-nos.

Não sabemos se o outro sente o mesmo. Não sabemos se a jornada que ambos começámos juntos nos levou, de mãos dadas, ao mesmo lugar. Não sabemos. Não sabemos se queremos saber. Não sabemos se queremos arriscar. Há o medo de não vermos o sentimento correspondido e de voltarmos a perder o chão. A queda é demasiado dolorosa para se arriscar dar o passo por algo que não temos a certeza se existe do outro lado.

O que faríamos se não tivéssemos medo?

Ela apercebeu-se onde estava primeiro do que eu.

Percebeu que estava a perder o controlo e não quis arriscar falar. Não quis saber se eu sentia o mesmo. Com o medo com que não conseguiu lidar, ou conter, decidiu que já não estava bem onde estava e partiu.

Compreendo a escolha que tomou e o porquê de o ter feito. Não consigo censurá-la por ter escolhido esse caminho, embora eu tivesse feito as coisas de maneira diferente.

Afinal de contas, quem melhor para nos proteger do que nós mesmos?

Ela não sabia que eu sentia, ainda sem o saber, o mesmo. Não sabia que eu iria sempre protegê-la, dos seus medos e das suas inseguranças. Sempre, sem hesitar.

Destroçado

É que também eu estava apaixonado, sei-o agora. E eu continuo irremediavelmente apaixonado. Agora sim, ouso dizê-lo, com todos aqueles advérbios de modo de que os escritores da moda tanto gostam de usar e abusar, aqueles que embelezam as palavras, que em nada beliscam o sentimento mas que ajudam a vender livros.

(continua…)


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